SALMOS: NÃO TE IRRITES

NÃO TE IRRITES: SÓ VAI PIORAR

Desiste da ira, depõe o furor, não te irrites, só iria piorar… Mas os mansos herdarão a terra, vão se alegrar com uma paz imensa (Salmo 37,8.11)

A ira toma conta de nós, quase sempre, sem avisar. É a reação espontânea diante de uma contrariedade, um insulto, uma injustiça… Temos a triste tendência de passar dos limites na irtitação , e ficar depois envergonhados. “Por que fui explodir assim”?” “Por que não me dominei”?

O autodomínio não é, principalmente, questão de força de vontade, de autocontrole. É verdade que, nas nossas reações e até explosões de ira, influi muito o nosso temperamento: uma pessoa fleumática, acomodada, reage menos violentamente que outra que é “sanguínea”, como se dizia antigamente.

Mas a verdadeira força da mansidão (da virtude que vence a ira) está, em primeiro lugar, na oração, em obter a graça de Deus para não nos irritarmos tão facilmente: «Coração misericordioso de Jesus, dai-me a paz!».

Em segundo lugar, a verdadeira mansidão é como um bunker seguro do coração, que evita desmandos e desastres quando está alicerçada sobre três virtudes: a humildade, a compreensão e a paciência.

  • Coração humilde. Lembra as palavras confortadoras de Jesus? Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas (Mt 11,29).

No coração de Cristo, mansidão e humildade são inseparáveis. Basta que meditemos no que Jesus passou por nós nas atrocidades da Paixão, sem se revoltar, sem devolver mal por mal, sem gritar nem acusar; ao contrário, orando pelos seus carrascos e  perdoando: Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem (Lc 23,24).

«Jamais Cristo fez sentir a ninguém a superioridade da sua pessoa; e isso não porque ele não tivesse consciência da sua autoridade e da plenitude do seu poder, mas porque seu coração era simples e bom para com todos»[1].

A pessoa realmente humilde não se considera superior a ninguém. Tem um forte fundo de respeito pelos demais, talvez porque tem um fundo forte de adoração, de gratidão e de respeito para com Deus, esse Deus que é Pai de todos e faz nascer o seu sol sobre maus e bons (Mt 5,45); esse Pai que nos concede muitas graças e nos perdoa muitas ofensas.

Além disso, o cristão vai crescendo aos poucos numa forma madura de amor, que consiste em descobrir Cristo nos que padecem, tanto pelos males físicos como pelos males morais: enfermos de soberba doentia, de intemperança, de egocentrismo, de pessimismo, de ódio … (cf. Mt 25,40).

  • Coração compreensivo. Compreender não consiste em justificar os erros dos outros, nem muito menos compactuar com eles. Já meditamos sobre isso. Quando o bem do próximo exige corrigir ou punir com justiça, isso pode e deve ser feito, sempre que se leve a cabo sem ódio, antipatia ou espírito de vingança. A raiva esteriliza qualquer tentativa de corrigir com eficácia.

«A mansidão é feita – diz uma alma contemplativa – de uma lucidez que ilumina os seres na sua claridade divina, fixando deles apenas as razões que temos para confiar e amar»[2].

Como seria bom que, nas relações familiares, profissionais e sociais, todos pensassem assim!

  • Coração paciente.

─ No Sermão da Montanha, a segunda das Bem-aventuranças cita o salmo que meditamos: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra (Mt 5,4). Jesus refere-se à Terra Prometida, que para nós é o Céu, e também a esta terra nossa, onde ainda temos que viver e lutar. A ira pode fazer perder o Céu, e certamente faz perder o melhor desta terra: os corações dos outros.

«O teu mau gênio – diz Salvatore Canals –, as tuas reações bruscas, os teus modos pouco amáveis, as tuas atitudes desprovidas de afabilidade, a tua rigidez tão pouco cristã, são a causa de que te encontres só, na solidão do egoísmo, da pessoa amarga, do eterno descontente, do ressentido; e são a causa de que também à tua volta, em vez de amor, haja indiferença, frieza, rancor e desconfiança…

»Nunca percamos de vista que o Senhor prometeu a sua eficácia às caras alegres, aos modos afáveis e cordiais, à palavra clara e persuasiva que dirige e orienta sem magoar: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra»[3].

A Imitação de Cristo diz que o coração manso e humilde é «vencedor de si mesmo e senhor do mundo». Para alcançar esse “domínio” santo, recomenda: «Procura manter-te em paz a ti mesmo, e então poderás pacificar os outros»[4]. Nesta mesma linha, são Josemaria aconselhava: «Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender[5].

Salvatore Canals, no livro acima citado, diz ainda: «Procura sempre, por meio da mansidão cristã, que é amabilidade e afabilidade, ter nas mãos os corações das pessoas que a Providência divina pôs no caminho da tua vida e recomendou aos teus cuidados. Se perdes o coração dos homens, dificilmente poderás iluminar-lhes as inteligências e conseguir que as suas vontades sigam o caminho que lhes indicas… A confiança não é coisa que se imponha, mas algo que se inspira». Muitos pais e mães, professores e professoras, deveriam meditar nisso.

Terminemos essa meditação com umas palavras interessantes de Riobaldo, o personagem central de Grande Sertão: Veredas. No seu longo monólogo, conta a seu interlocutor um conselho recebido do irrequieto Zé Bebelo: «Raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente: o que isso era falta de soberania, e farta bobice»[6].

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

—–

[1] Urban Plotzke, Mandamiento y vida, Ed. Rialp, Madrid, pág. 98

[2] Um Cartuxo, Silêncio com Deus, Ed. Aster, Lisboa 1959, pág. 148

[3] Salvatore Canals, Reflexões espirituais, 1ª edição. Quadrante, São Paulo, págs. 54-57)

[4] Livro II, cap. 3

[5] Caminho, n.10

[6] João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, 19ª ed. Ed. Nova Fronteira 2001, p. 253