SALMOS: A SANTA INDIGNAÇÃO

NÃO REJEITES COM IRA O TEU SERVO

Tomai cuidado, ó reis… Servi ao Senhor com reverência… , para que não se indigne e pereçais pelo caminho (Salmo 2,10-12). Não rejeites com ira o teu servo. És meu auxílio, não me deixes, não me abandones, Deus, meu salvador (Salmo 27,9).

No capítulo anterior, meditamos sobre a virtude da mansidão. Neste, meditaremos sobre a virtude da santa indignação.

A santa indignação é a face positiva da paixão da ira que, como todos os impulsos naturais da emotividade, pode ser canalizada para o bem ou para o mal. O segredo da autenticidade da ira boa é o amor: se o amor estiver presente como seu motivo e sua força, a indignação será santa, a ira será boa; se não estiver, será ruim.

São Tomás de Aquino insiste em que a ira é uma força positiva, que pode tornar mais vigorosas as virtudes. Chega a dizer que a ira procedente do zelo pelo bem, constitui a autêntica força de defesa e de resistência da alma[1]. Pense no exemplo de um jornalista que, sem ofender as pessoas, apaixona-se por defender os valores morais cristãos, ou luta com as armas da verdade para desmascarar calúnias contra inocentes.

Com essas premissas, meditemos agora sobre três tipos de ira boa:

─ A ira divina. Deus é o Amor, é o “único bom”  (cf. 1 Jo, 4,8 e Mc 10,18). É evidente que o Amor total e a Bondade pura são incompatíveis com a mentira e a maldade. Não há combinação possível. Deus é Luz – diz são João ─ e nele não há treva alguma (1Jo 1,5). E são Paulo: Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? (2 Cor 6,14).

A Bíblia fala com frequência da ira de Deus. É expressão tanto da sua justiça como do seu amor. O Amor por essência não pode ficar indiferente em face do Mal. As almas humildes, que se sabem pecadoras, rezam com o segundo salmo que acima citamos: Não rejeites com ira o teu servo; és meu auxílio, não me deixes. E alegram-se com a certeza de que o Senhor é misericordioso e compassivo, lento para a cólera e rico em bondade (Salmo 103,8).

Deus é bom, mas a sua bondade não é a de um papai Noel de açúcar- cande. Deus quer o nosso bem, quer a nossa felicidade eterna. Por isso não brinca. Se precisa falar forte, fala; se precisa ameaçar e lembrar que o mal será punido, não esconde essa verdade. Tomai cuidado, ó reis… Servi ao Senhor com reverência… , para que não se indigne e pereçais pelo caminho, diz o primeiro salmo citado no cabeçalho deste capítulo. Bem o entendia são Paulo,quando alertava: Não vos iludais; de Deus ninguém zomba (Gl 6,7).

─ A ira santa de Jesus. Jesus, Deus e homem verdadeiro, sabe o que é o Mal. Jesus sabe quais são os ardis de Satanás (cf. Mt 4,1-11). Por isso, por amor de nós (pois ele veio para nos salvar) manifesta diversas vezes a sua santa indignação.

É notável perceber que nunca se indigna por ofensas meramente pessoais: basta ver seu silêncio e mansidão perante as cusparadas, bofetadas, açoites, burlas e insultos da Paixão. Mas reage com santa ira, movido pelo amor de Deus Pai e pelo amor de nós, perante  ação do mal, especialmente do mal que pode enganar inocentes e fazê-los tropeçar e cair.

Assim, nós o vemos no Templo de Jerusalém, de chicote na mão, indignado contra os vendilhões que profanam a casa de Deus. Ele os expulsa: Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio. Os discípulos, então, lembram-se de que estava escrito: O zelo da tua Casa me devorará (Jo 2,16-17) .

Indigna-se contra os que corrompem as crianças com seus maus exemplos, seus maus conselhos, suas atitudes infames, seus crimes abomináveis. Chega a dizer palavras muito duras, mas que parecem bem justas e atuais: Caso alguém escandalize um desses pequeninos que acreditam em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e o precipitassem no profundo do mar (Mt 18,6).

─ A ira dos homens e mulheres de bem.  Uma pessoa honrada – seja religiosa ou não – deve reagir com ira justa perante os ultrajes à verdade, à justiça e à dignidade das pessoas.

Sem essa reação, a alma acabaria acovardando-se, deixando passar tudo, e contaminando-se com uma “tolerância” muito simpática e popular, mas que é uma autêntica traição à verdade e ao bem: é o beijo de Judas na face de Cristo. Como é fácil brilhar com a maquiagem da bondade, da “bondosidade”, na base de tolerar males morais, que destroem as pessoas e as famílias mais do que os males físicos, para “não magoar” ninguém, para não ser politicamente incorreto e para não perder a imagem de caridoso e compreensivo perante a opinião dos outros.

São João Crisóstomo afirma claramente: «Quem não se indigna quando há motivo, peca. A paciência que não é razoável semeia vícios, alimenta a negligência e facilita que não só os maus, como também os bons, pratiquem o mal»[2]. «Quem se cala na presença da injustiça, diz por seu lado Hugo de São Vítor, tem os lábios manchados, e a iniquidade que não combate se vira contra ele»[3].

Essa responsabilidade, hoje tão esquecida, deve ser muito lembrada; sem esquecer, porém, que a ira só é boa se reúne as duas condições seguintes:

  • Se a indignação dirige-se contra o erro, não contra a pessoa que erra. Assim se expressa Santo Agostinho: «Deve-se combater o erro, e amar o que erra». Se a ira se voltar contra a pessoa, passará a ser ódio, e ficará corrompida pela falta de caridade. Por isso, a indignação cristã, sem se esvaziar por moleza, sempre deverá ter pronto o respeito, o perdão e o coração aberto ao diálogo com a pessoa cujo erro combate. Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mt 5,44).
  • A segunda condição subentende-se no já dito. Acontece, porém, que é de tal importância, na cultura em que vivemos, que convém repisá-la com toda a clareza.

Refiro-me à passividade indiferente e desfibrada de pessoas, famílias, comunidades – mesmo religiosas  – diante de ideias, costumes e comportamentos que contradizem princípios elementares de ética natural e da fé e da moral cristã. Alguns cristãos “atualizados” passam até a ser paladinos daquilo que sua consciência, antes de se corromper, lhes dizia claramente que era um grave mal, um pecado grave.

Creio que os dois textos que vou citar a seguir deixam esse problema bem equacionado:

O primeiro é de Ernest Hello: «Tente imaginar, se pode, um santo que não deteste o pecado… O verdadeiro santo possui a caridade, mas é uma caridade terrível, que queima, um amor que detesta o mal, justamente porque quer o bem, quer a cura daquele que o padece. O santo que os mundanos imaginam deveria ter uma caridade adocicada que abençoaria qualquer coisa, qualquer pessoa, em qualquer circunstância. O santo que o “mundo” gosta de imaginar sorriria ao pecado, sorriria a todos, sorriria a tudo. Seria alguém sem indignação nenhuma, sem profundidade, sem altura… Seria benigno, benévolo, açucarado para com o doente, mas indulgente e tolerante para com a doença»[4].

O segundo texto é o filósofo americano Peter Kreeft.  «Supõe-se – diz – que temos compaixão, misericórdia e indulgência para com os pecadores, como Deus. Mas supõe-se que não utilizamos a “compaixão” como uma desculpa para negar a existência do pecado. Deus nunca faz isso. Mas o mundo moderno, sim.

»Toda vez que alguém faz um juízo moral, é criticado porque lhe falta “compaixão”, compreensão, e prega-se nele a etiqueta de um ou mais dos três efes do homem moderno: fascista, fanático e fundamentalista (esse último qualificativo deve ser pronunciado com desprezo)… Você quereria que seu médico fosse “compreensivo” com as suas células cancerosas?…

»É falso dizer que tudo o que precisamos é amor. Precisamos também da verdade. Um cirurgião precisa de algo mais que amor. Também precisa de luz»[5].

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

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[1] Suma Teológica I, q. 81, a. 2;  II-II, q. 158, a. 1 c.

[2] Citado por S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, II-II, q.158, a.8

[3] Cf. Ernest Hello, Du Néant a Dieu, Ed. Perrin, 1921, II, pág. 36

[4] L’homme, Ed, Perrin, Paris 1911, pág. 222

[5] Como tomar decisiones. Ed. Rialp, Madrid 1993, págs. 33 ss.