SALMOS: COMO UM BURRICO

EU ERA COMO UM JUMENTO DIANTE DE TI

─ Quase tropeçaram os meus pés, por um nada vacilaram meus passos, pois comecei a ter inveja dos arrogantes, vendo a prosperidade dos maus. Para eles o sofrimento não existe, sadio e bem nutrido é seu corpo… Então foi em vão que conservei puro meu coração, e que na inocência lavei as minhas mãos? … Quando meu coração se amargurava e sentia dor aguda em minhas entranhas, eu era um insensato e não entendia, como um jumento eu era diante de Ti.  ─ No entanto, eu estarei sempre contigo; Tu me tomaste pela mão direita. Com teu conselho me guiarás e depois na Glória me receberás (Salmo 73,2-4.13.21-24).

  • O burrico cego. O salmista confessa que passou por uma crise de fé. Viu que os maus prosperavam, e parecia que Deus os poupava dos males e os cumulava de bens. Ao passo que ele, procurando ser bom, sofria sem saber por quê. Isso levou-o à beira da revolta contra Deus.

Muitos sentem essa mesma tentação. São pessoas boas que têm fé mas não entendem. Por que este meu sofrimento, ou o sofrimento dos que amo? Onde está Deus?

Na Bíblia, todo o Livro de Jó está dominado por esse drama. Jó era um homem justo, honesto e bom. Inesperadamente perde tudo: bens materiais, filhos, netos, a saúde. A sua primeira reação é de fé e abandono em Deus: Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos também receber os males? (2,10).

Mas entram em cena três amigos, e depois mais um quarto, que ao mesmo tempo que o compadecem tentam convencê-lo de que, se ele sofre, sem dúvida é porque mereceu o castigo divino por algum pecado grave. Todo o livro de Jó é uma autodefesa do justo sofredor, que chega a exasperar-se e quase a blasfemar: Os dias da aflição apoderaram-se de mim…, os males que me devoram não dormem…Que Deus me pese numa balança justa e reconhecerá a minha integridade…

O longo desabafo de Jó prolonga-se até que Deus intervém: Quem é este que obscurece os meus desígnios com palavras sem sentido?… Quem censura o Todopoderoso, e ainda quer discutir? Após um amplo discurso do Senhor, cheio de grandeza e de impressionante beleza poética, Jó acaba inclinando humildemente a cabeça e responde: Eu falei sem nada entender de maravilhas que ultrapassam o meu conhecimento… Agora vejo-Te com meus próprios olhos; por isso, acuso-me a mim mesmo e me arrependo. Deus não o repreende; pelo contrário, acaba dando a razão a Jó e censurando os quatro amigos. Depois, restitui-lhe todos os bens, o dobro do que possuía (cf. Capítulos 30 a 42). Sem dúvida, Jó receberá além disso no Céu a bem-aventurança eterna.

Na terra o sofrimento quase nunca é castigo de Deus. É a provação da nossa fé – Deus provou-os como o ouro na fornalha (Sb 3,6) –, e, com frequência, termina sendo uma grande bênção. Acontece que o Amor de Deus e as perspectivas da sua eterna sabedoria em relação a nós, muitas vezes são um enigma. Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus  – exclamava são Paulo –. Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos (Rm 11,33).

Mas o que é certíssimo é que Deus não nos abandona. Mesmo na maior escuridão, mesmo se tivermos que atravessar o vale tenebroso (Sl 24,4), as almas de fé, com a ajuda da graça divina,  mantêm a confiança e a paz. «A fé que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz – escreve Bento XVI –, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz, fundamentalmente a única, que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir»[1].

Foi essa fé, vivida com sentido de eternidade, que fez com que são Thomas More, por fidelidade à sua fé católica, enfrentasse a prisão na torre de Londres e a condenação a ser decapitado. Em agosto de 1534, pouco antes de ser executado, dizia à sua filha Margareth: «Meg, minha filha queridíssima, nunca se perturbe a tua alma por qualquer coisa que possa vir a acontecer comigo neste mundo. Nada pode acontecer, senão o que Deus quer. E tenho plena certeza de que, aconteça o que acontecer, por muito mau que pareça, será na verdade o melhor»[2].

  • O burrico sábio. Como víamos, o salmista, no aperto, quase escorregou: Eu era um insensato e não entendia, como um jumento eu era diante de Ti. Hoje diria: “Meu Deus, como fui burro!” Mas logo depois, ajudado pela graça, percebeu que Deus amava esse burrico, sorria para ele e lhe estendia a mão: Eu estarei sempre contigo, tu me tomaste pela tua mão direita.

A partir desse momento, passa a ser um burrico sábio, que nunca se perderá, porque se deixará conduzir por Deus. Seu coração ouviu a voz de outro salmo: Descansa no Senhor e nele espera. Não te irrites por causa dos que prosperam… O Senhor ama a justiça e não abandona os seus devotos…O homem de paz tem futuro (Sl 37,7.28.37).

São Josemaria tinha uma grande “devoção” ao burrico do salmo 73, e gostava de ver-se a si mesmo retratado nele. Ficava feliz quando lhe davam de presente a figura de um burrinho, de barro, de porcelana, de cera, de aço, de sisal… A um jornalista que lhe pediu uma fotografia, entregou-lhe um desses burrinhos: “Este sou eu”.

«Eu me fiz como um burrinho diante de ti», rezava com frequência, com palavras do nosso salmo: «ut iumentum factus sum apud te!».

E imaginava a “História do burrico” que, apesar dos seus desejos, nunca chegou a escrever. Mas deixou alguns traços das suas meditações sobre esse simpático animal, que as biografias recolhem.

Por exemplo, via no burrinho o símbolo da santificação do trabalho cotidiano, sobre a qual tanto pregou: «Atrai-me esse animal paciente e laborioso, porque o burrinho é forte e austero, porque é humilde. Mas, sobretudo, porque trabalha: porque sabe perseverar dia após dia dando voltas à nora [aparelho que gira e extrai água do poço], tirando a água que faz florescer a horta. O burrico conforma-se com tudo… Trabalha e trabalha, e com um punhado de palha ou de capim tem o bastante».

E usava com frequência as palavras do salmo que meditamos agora para a sua oração pessoal: «Não sei a vocês; mas a mim não me humilha reconhecer-me, aos olhos do Senhor, como um jumento. “Ut iumentum factus sum apud te” – Como um burriquinho estou diante de ti.  “Tenuisti manum dexteram meam” – Eu costumo dizer-lhe: tomaste-me pelo cabresto. “Et in voluntate tua deduxisti me” – e me fizeste cumprir a tua vontade, isto é, me fizeste ser fiel à minha vocação. “Et in gloria suscepisti me” – e depois me darás um abraço bem forte»[3].

Não se esqueça de que “ser burrico” não é coisa de pouca importância. Jesus mandou buscar um burrico para entrar triunfalmente em Jerusalém, quando se iniciava a Semana Santa da sua Paixão e da Morte.

Trecho do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

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[1] Encíclica Deus caritas est, n. 39

[2] Thomas More, A sós com Deus. Escritos da prisão. Ed. Quadrante, 2002, págs. 78-70

[3] cf. Andrés Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, 3 volumes, Ed. Quadrante, 2004