COMPARAÇÕES E IMAGENS: FÉ OU AMOR?

FÉ OU AMOR?

No final dos anos sessenta, num período em que fermentavam as crises e revoluções sociais, ideológicas e religiosas, dois intelectuais católicos franceses, ambos convertidos  – o filósofo Jean Guitton e o jornalista converso André Frossard – mantiveram um diálogo aberto sobre problemas de atualidade ao longo de vários programas radiofônicos. Os ouvintes participavam enviando seus comentários

Num dos programas, Guitton começou dizendo: «Em uma das nossas conversas anteriores, abordávamos o problema da fé, e já recebi muitas cartas a esse respeito. Um dos meus correspondentes escrevia: “André Frossard e o Sr. falaram da crise da fé; mas o essencial não é um problema de fé, e sim um problema de amor. Não importa tanto saber se as pessoas têm ou não têm fé; trata-se de saber se as pessoas têm amor”…»

Aparentemente Cristo teria ensinado que o amor está acima da fé: O primeiro de todos os mandamentos – ensina Jesus – é este: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes, não existe (Mc 12, 29-31).

Então, como se explica o que Frossard, bom conhecedor do Evangelho, comentasse a seguir, no mesmo programa:  «No Evangelho, o que Deus mais admira, o que provoca a admiração de Cristo, é, sobretudo, precisamente a fé. Chega a dizer, com uma espécie de espanto [ao ver a fé do centurião romano que pede a cura do seu servo]: Nunca tinha visto tamanha fé em Israel. Essa fé faz parte das virtudes teologais e não pode ser separada do amor».

Na mesma linha, Guitton reforçou: «Se tivesse que escolher entre a fé e o amor, creio que daria precedência à fé. Partindo da fé, estou persuadido de que encontraria o amor, sem as falsas ilusões nem os equívocos que costumam acompanhá-lo. E acrescentou ainda: «Entre a fé e o amor há uma corrente de força e de luz, que faz com que o verdadeiro amor leve à fé, e a verdadeira fé leve ao amor».

O amor sem fé, sem a doutrina que é o seu alicerce, acaba descambando em sentimentalismo, em egoísmo, e finalmente no desinteresse, fruto da ignorância, que desemboca na perda da fé. Esta é uma realidade que hoje comprovamos fartamente.

Adaptação de um trecho do livro Autenticidad & Cia