SALMOS: LEÕES E DRAGÕES

LEÕES E DRAGÕES

O Salmo 91[90] fala de que, com a proteção divina, pisarás sobre o leão

o dragão.

Em um dos seus sermões sobre os salmos, Santo Agostinho faz um comentário muito arguto sobre as imagens do leão e do dragão. Vale a pena transcrever as suas palavras, tendo em conta que falava a cristãos do século V, tempos em que não mais eram perseguidos pela sua fé, mas guardavam a memória recente das terríveis perseguições desencadeadas pelos imperadores romanos até inícios do século IV, e relatadas a eles por seus pais e avós.

             «Como os nossos pais precisaram de paciência contra o leão [o poder imperial romano], assim também nós precisamos de vigilância contra o dragão [o sutil veneno do erro, da heresia]. A perseguição contra a Igreja nunca cessa, quer por parte do leão quer por parte do dragão, e mais se deve temê-la quando engana do que quando se assanha.

»Em outros tempos, incitava-se os cristãos a renegarem Cristo; nestes, ensina-se a negar a Cristo. Então a perseguição esmagava, agora ensina; então usava de violência, agora de insídias; então ouviam-na rugir, e agora, apresentando-se com aparente mansidão, dificilmente se faz notar.

»É coisa sabida como então a perseguição violentava os cristãos para que negassem Cristo; mas eles, confessando o nome de Cristo, eram coroados. Agora ensina a negar a Cristo e, enganando-os, não quer que pareça que os afasta de Cristo».

             Santo Agostinho dirigiu essas palavras a cristãos que viveram há mais de mil e quinhentos anos. Você não acha que são plenamente atuais?

             Na nossa época, o leão continua ativo: matou, encarcerou e torturou mais cristãos nos séculos XX e XXI do que na “era dos mártires”, os três primeiros séculos do Cristianismo. Há atualmente notícias frequentes – pouco difundidas pela mídia –  de muitos cristãos degolados pelos islâmicos fanáticos da sharia; de igrejas inteiras repletas de fiéis que foram incendiadas em várias localidades da Ásia e da África. Isso sem lembrar as torrentes de sangue cristão derramadas pelos horrores do nazismo e do comunismo em anos relativamente recentes.

             É verdade. O leão continua ativo. Mas, hoje, é muito mais ampla, insidiosa e “eficìente” a perseguição do dragão. O veneno sutil é instilado quase todos os dias no ambiente que nos rodeia, no ar que respiramos, na mente indefesa de crianças e adolescentes.

 Trata-se das constantes campanhas midiáticas, educacionais e legislativas, destinadas a varrer os mais altos valores do ser humano feito à imagem de Deus; campanhas dirigidas a desacreditar a Igreja e a reduzir os cristãos a cidadãos de segunda categoria que é preciso silenciar. Nem sequer se lhes tolera – como dizia São Tomás More no seu processo – o direito de ficarem calados. Escolas, professores, são obrigados a seguir programas obrigatórios e propagar ideologias que contrariam frontalmente as suas opiniões, crenças e convicções. E não se admite o direito à “objeção de consciência”.

             Será que, em nome da liberdade, e de uma maneira muito seletiva de encarar os “direitos humanos”, já chegamos a uma cultura de mordaça totalitária?

Trecho adaptado do livro O espelho dos Salmos