DUAS FALSAS LIBERDADES

DUAS FALSAS LIBERDADES

Imagine, em primeiro lugar, que você observa na rua um homem que, de olhos esbugalhados e soltando grandes gargalhadas, vai batendo com um tijolo na cabeça dos velhinhos, arrancando bebês dos braços das mães e atirando-os como bolas de basquete para o outro lado da rua, quebrando as vitrines das lojas e deitando-se no meio da rua, lá onde o fluxo dos carros é maior.

O que você diria? Que está doido varrido, não é? E, no entanto, você tem que concordar comigo em que ele está agindo com liberdade, porque está “fazendo tudo o que quer” (enquanto não lhe puserem a camisa-de-força). Faz livremente tudo o que lhe dá na telha, só que… está mal da cabeça, e isso o torna um caso patológico. Quando falta a razão, a luz da razão, não se pode falar em “liberdade”.

A liberdade, para ser verdadeira, deve ter como base a compreensão inteligente da realidade. Só em cima da verdade sobre a vida, sobre o mundo, sobre nós mesmos e sobre Deus, sobre o que é verdadeiro e o que é bom, é que se pode exercer a liberdade, é que se pode escolher e decidir conscientemente qualquer coisa.

Uma boa definição de liberdade inclui necessariamente a ideia de reflexão, de decisão lúcida. Veja estas palavras do Catecismo da Igreja Católica: “A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados” (n. 1731).

Isso complementa-se com outra consideração importante. Você sabe que há uma liberdade que é certamente inteligente mas que é liberdade de destruição. Não é como a do louco, pois esta segunda liberdade baseia-se na razão, na inteligência e, muitas vezes, até numa extraordinária inteligência, e nuns raciocínios extremamente lógicos e bem concatenados…, mas está toda ela orientada para o mal. É a liberdade dos gângsteres, dos mafiosos, dos traficantes de drogas, dos contrabandistas de armas, dos comerciantes de órgãos de crianças sequestradas, dos matadores profissionais…. Eles pensam, planejam, arquitetam tudo muito bem, decidem e “fazem livremente o que querem”, mas o que querem é um mal , um mal que destrói.

Isto ajuda-nos a ver por quê a liberdade pôde ser comparada à energia atômica: porque, como ela, possui um enorme poder, que tanto pode ser utilizado para o bem como para o mal, para aniquilar de uma vez milhões de seres humanos ou para fornecer energia a milhares de cidades e de fábricas.

Todas as pessoas sensatas concordam em que só é humano e certo usar a energia atômica para uma finalidade construtiva e boa. Da mesma forma, todas as pessoas inteligentes e sensatas podem compreender que a liberdade só é humana quando se utiliza visando uma finalidade construtiva e boa.

Toda liberdade é desejada e exercitada para alcançar uma finalidade (liberdade para namorar, para viajar, para amar, para ter essas amizades, para estudar isto ou aquilo, para gozar dos prazeres da vida, etc.). Não existe liberdade sem um fim. A pessoa que diz “Quero ser livre para ser livre”, ou está dizendo uma tolice, ou na realidade está querendo dizer “Eu quero ser livre para fazer tudo o que o meu egoísmo desejar, sem medir nem pensar as coisas”, ou seja, para viver só no mais reles egoísmo.

A finalidade que orienta o exercício da nossa liberdade é sempre o indicador do sentido e do valor que damos à nossa vida. Queremos a liberdade para construir, para amar, para fazer o bem, para abraçar um ideal, para abraçar Deus agora e por toda a eternidade; ou apenas para satisfazer instintos, caprichos e desejos do momento, efêmeros e irracionais, que têm como desfecho quase inevitável a devastação da vida?

Pense um pouco nisso, e faça seu exame de consciência?

Adaptação de um trecho do livro Autenticidade & Cia