COMPARAÇÕES E IMAGENS: OS FIOS DE GULLIVER

OS FIOS DE GULLIVER

O protagonista do famoso romance de Jonathan Swift, após ter naufragado, arriba a nado a uma terra desconhecida. Exausto, deita-se na relva e, passadas nove horas, ao acordar – como ele mesmo narra – «tentei levantar-me, mas em vão o fiz. Vi-me deitado de costas, notando também que as pernas e os braços estavam presos ao chão, assim como os cabelos. Observei então que muitos cordões delgadíssimos me rodeavam o corpo, dos sovacos às coxas. Só podia olhar para cima».

Não tardou em descobrir que, enquanto dormia, os minúsculos habitantes daquele país, a terra de Liliput, o haviam amarrado com finíssimos mas sólidas cordinhas a uma multidão de estacas fincadas na terra. Mesmo fazendo força, não podia libertar-se.

Gulliver amarrado em Liliput é todo um símbolo. Pois é o retrato de muitos rapazes e moças – e adultos! –, que se julgam livres porque não estão mais condicionados ou amarrados por papai, por mamãe nem por ninguém, mas que, na realidade, estão presos por inúmeros fios com que eles mesmos se ataram.

Esses falsos-livres, enquanto se ufanam da sua total independência de ideias e de movimentos, não percebem que centenas de “liliputianos” invisíveis, nascidos da sua falta de caráter, lhes estão amarrando, dia após dia, a cabeça, o coração e a vontade. Parecem livres – libérrimos –, mas são prisioneiros, porque estão atados pelas cordas das suas fraquezas, vícios e defeitos.

Defeitos que amarram a vontade e o coração. É muito comum que ele ou ela digam: “Eu faço o que quero. Acordo quando quiser, não quero que me batam à porta, não me venham com bitolações de pontualidade e horas certinhas de acordar”. Dizem isso e não reparam que um “liliputiano” chamado preguiça já há muito tempo que os têm amarrados com fios de aço, de maneira que seriam mais sinceros se dissessem: “Eu só consigo acordar quando a preguiça me dá licença; ela me mantém prisioneiro, escraviza-me, não posso acordar quando a inteligência me indica que deveria fazê-lo, nem quando a vontade desejaria; só quando a preguiça consente”.

A mesma coisa poderia dizer-se de inúmeras “liberdades” de que jovens e velhos se gabam. “Liberdade sexual! Nada de restrições moralistas!” – “Liberdade? – poderíamos retrucar –. Seja sincero. Você está tão dominado pela sensualidade destravada como outros o estão pela droga. Você não é livre! Você é uma pobre marionete dos seus instintos e das suas paixões! Não faz o que quer, mas o que não consegue deixar de fazer. Faz tempo que já não é dono do seu sexo nem do seu estômago, mas seu escravo”.

Adaptação de um trecho do livro Autenticidade & CiaI