SALMOS: DILATASTE O MEU CORAÇÃO

DILATASTE O MEU CORAÇÃO

─ Multiplicas sobre mim a tua bondade…Fizeste-me avançar a largos passos (Salmo 18,36-37). ─ Corro pelo caminho dos teus mandamentos, porque dilataste o meu coração (Salmo 119,32).

  • O tamanho do coração. Já meditamos sobre o que significa, na linguagem bíblica, o “coração”. É o núcleo central da nossa alma, como o manancial de onde surge tudo: intenções, pensamentos, desejos, planos, sonhos…

Se nos perguntassem “como é o teu coração”, provavelmente ficaríamos perplexos, e responderíamos: “O quê?”. Mas, a pergunta fosse: “você tem um coração grande o ou um coração pequeno?”, ficaríamos pensativos. E com toda a razão. Porque o “sensor sincero” da nossa alma nos faria ver em nós uma porção de  mesquinharias, de pensamentos e atuações acanhados, miseráveis e estreitos. E ficaríamos envergonhados.

  • O que encolhe o coração? Fundamentalmente é a recusa de levar “mais longe” a nossa capacidade latente e infinita de amar: de  amar a Deus e de amar ao próximo. Quando pensamos em uma maior doação de nós mesmos, em sacrifícios mais custosos, em ajudas e atos de serviço generosos, em ideais difíceis, muitas vezes achamos que isso é exagero, loucura; e talvez julguemos que os que tentam praticar tais coisas “grandes” são ingênuos ou fanáticos.

Deste modo vai aumentando no mundo o incontável número dos medíocres; e vai se espalhando um conceito de “normalidade” que se identifica com a moleza, o aburguesamento e o mais reles egoísmo.

Jesus retrata bem essa mediocridade na revelação que fez a são João na ilha de Patmos, ou seja, no Apocalipse. Ao ler suas palavras, perguntemos se, porventura, não quer dizer também a nós as mesmas coisas.

Conheço tua conduta: tens fama de estar vivo, mas estás morto. Vigia! Reaviva o que te resta, e que estava para morrer! Pois não acho plenas as tuas obras aos olhos do meu Deus (Ap 3,1-2).

            – Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te da minha boca (Ap 3,15-16).

Com essas expressões enérgicas, Cristo retrata a tibieza, a doença espiritual da alma morna, que se satisfaz com o mínimo obrigatório, e até acha muitas vezes desculpas para deixar de fazê-lo: para descuidar a oração diária, a Missa aos domingos e dias de guarda, a confissão e a comunhão periódicas, etc.

Se notamos em nós, nem que seja só um pouco, esse encolhimento do coração, peçamos com palavras do Salmo: Meu Deus, dilata o meu coração!

 O coração grande. Você sabe o que é a bela virtude da magnanimidade? Seu nome diz tudo: alma grande, magna. «A magnanimidade, que se chama também grandeza de alma e nobreza de caráter, é uma disposição nobre e generosa para empreender coisas grandes por Deus e pelo próximo»[1].

É a virtude da alma que não se conforma com vegetar numa vida sem grandeza, carente de um ideal elevado pelo qual valha a pena lutar, amar e sofrer. «O magnânimo – diz são Tomás – tende para o que é grande… É natural que se aparte das coisas imperfeitas»[2].

“Mas é inevitável sermos imperfeitos”, você dirá. E eu lhe direi que sim, que até os maiores santos – com exceção da Virgem Santíssima – tiveram e têm imperfeições. Mas há dois tipos de imperfeição: a involuntária, fruto das limitações da condição humana; e a voluntária, própria de quem diz: “Para mim chega, sinto-me bem assim; não sou nem pretendo ser santo”.

Acontece que Deus não pensa igual a você. Escute Jesus: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). E releia são Paulo: Este é a vontade de Deus: que sejais santos (1Ts 4,3).

Só quando compreendemos a grandeza da nossa vocação cristã é que entendemos o valor da magnanimidade. Penso que nos ajudará a vê-la melhor a meditação das seguintes palavras de são Josemaria:

«Magnanimidade: ânimo grande, alma ampla, onde cabem muitos. É a força que nos move a sair de nós mesmos, a fim de nos prepararmos para empreender obras valiosas, em benefício de todos. No homem magnânimo, não se alberga a mesquinhez; não se interpõe a sovinice, nem o cálculo egoísta, nem a trapaça interesseira. O magnânimo dedica sem reservas as suas forças ao que vale a pena. Por isso é capaz de se entregar a si mesmo. Não se conforma com dar: dá-se. E assim consegue entender qual é a maior prova de magnanimidade; dar-se a Deus»[3].

Em 1974, são Josemaria esteve no Brasil, convivendo com seus filhos do Opus Dei durante quinze dias e participando de reuniões de catequese com milhares de pessoas. Sua palavra vibrante, impregnada do calor e da luz de Deus, atingiu os corações da maioria dos que o viram e ouviram. Para muitos deles, as perspectivas da vida mudaram, e decidiram ter uma relação mais íntima e generosa com Deus; e assumir ideais práticos de serviço e apostolado «no Brasil e a partir do Brasil».

Como manifestação de gratidão a são Josemaria e testemunho de que a sua dedicação incansável não tinha sido estéril em nós, fez-se aqui um “reposteiro” decorado com pirogravuras. Bem no centro inscreveram-se, artisticamente emolduradas, as palavras do Salmo 119 que agora estivemos meditando: Dilatasti cor meum, dilataste o meu coração[4].

Peçamos agora a Deus que, com a sua graça, dilate cada vez mais o nosso.

 

[1] A. Tanquerey, Compêndio de Teologia ascética  e mística. Cultor de Livros, São Paulo.

[2] Suma Teológica, II-II, q.129, a. 4

[3] Amigos de Deus, n. 80

[4] cf. o nosso livro São Josemaria Escrivá no Brasil, 3ª ed., Quadrante, São Paulo 2017