SALMOS: MEU CORAÇÃO ESTÁ PRONTO

MEU CORAÇÃO ESTÁ PRONTO

─ Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto (Salmo 57,8).

O salmista recorre a Deus num momento em que sofre uma dura perseguição. Sente-se como que cercado entre leões que devoram a gente: seus dentes são lanças e flechas; sua língua espada afiada. Mas, apesar disso, não se abala, não perde a confiança no Deus que me faz o bem.  Junto do Senhor e contando com ele, seu coração se mantém pronto para superar qualquer tribulação e continuar a fazer com alegria o que Deus espera dele: Eu te louvarei entre os povos…porque tua bondade é grande até o céu, e tua fidelidade até as nuvens (Sl 57,5.3.10-11).

Todo aquele que quiser viver o ideal cristão terá que enfrentar, com confiança em Deus, oposições, resistências, medos, cansaços e tentações: obstáculos que podem anular o ânimo e a energia. A covardia que inibe é a  autodefesa do fraco, que nela se refugia para não enfrentar as dificuldades que o cumprimento da vontade de Deus exige.

  • Meu coração está pronto para quê? Infelizmente, muitos parece que só têm o coração pronto para duas coisas:

– para reclamar do que os contraria

– para dizer, mesmo sem palavras: Eu confiarei em Deus desde que ele faça a minha vontade, desde que me conceda o que eu quero e elimine o que não quero.

Um coração assim “não está pronto” para nada que valha a pena. Refugiou-se dentro da bolha do seu egoísmo, onde a confiança em Deus e a sua graça não têm espaço.

O Evangelho simboliza esses corações que não estão prontos na figura dos convidados da parábola que apresenta o Senhor como um homem que preparou um grande banquete e convidou muitos: Vinde, tudo está preparado! Mas todos, um a um, começaram a dar desculpas. Todos colocaram seus interesses (preocupação por um campo, por umas parelhas de bois…) acima do chamado de Deus. A parábola termina com palavras duras: Eu vos digo: nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete (Lc 14,16-24).

  • A alegria dos corações prontos. Quer ver o que é um coração pronto? Estou escrevendo este capítulo, que é o último deste livro, nos dias de preparação do Natal, e a resposta me surge imediata: – Contemple as figuras do Presépio! Cada uma delas é um “coração pronto”.

– Maria, em primeiro lugar. No dia da Anunciação, a mensagem do anjo Gabriel a deixou perturbada: Conceberás e darás à luz um filho… Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo… e o seu reino não terá fim (cf. Lc 1,29-33).

Era para tremer de medo. Maria, uma menina muito nova, com planos de vida simples já traçados, vê tudo modificado por Deus. No entanto, assim que capta o que Deus lhe fala, ela se dispõe a trocar seus sonhos pelos de Deus. Só pergunta como poderá realizá-los: Como se fará isso? O anjo a esclarece, mostrando-lhe que para Deus nada é impossível e que o milagre de conceber sem alterar sua consagração virginal se realizará por intervenção direta do Espírito Santo.

A sua resposta consiste em dizer logo “sim”, meu coração está pronto. E o faz com palavras que nunca meditaremos suficientemente: Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,28-39-38).

– José. Você sabe quanto sofreu diante do enigma da concepção virginal de Maria! Mas Deus não o abandonou à sua angústia. Um anjo lhe falou em sonhos: José, filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados.

José respondeu “meu coração está pronto”, não com palavras, mas com obras. Após receber a mensagem, imediatamente, sem esperar um só dia, acolheu Maria sua esposa, com infinito amor e veneração, e assumiu a custódia da mãe e do filho com uma fidelidade que durou até a sua morte.  Não hesitou, não discutiu, não reclamou. Disse “sim”, e basta. Quando acordou, José fez  conforme o anjo do Senhor tinha mandado (Mt 1,19-24).

Comove pensar que José “sempre” fez assim. Veja uma amostra da sua “biografia”. Quando estourou a perseguição de Herodes contra Jesus menino, o anjo de Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito”… Ele se levantou durante a noite, tomou o menino e a mãe, e partiu para o Egito (Mt 2,13-14). Como da outra vez, no mesmo instante em que  conheceu o que Deus queria, se dispôs a cumprir a vontade de Deus de todo o coração.

  • Os pastores. Também a eles um anjo do Senhor anunciou-lhes o nascimento de Cristo. Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: hoje, na cidade de Davi [em Belém], nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor.

O anjo deu-lhes um sinal que não parecia nada condizente com a grandeza do Messias, do Rei de Israel: Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura.

Teria sido lógico que perante esse estranho anúncio, lhes viessem dúvidas, e surgissem debates, divisão de opiniões… O Evangelho não fala nada disso, mostra apenas a beleza dos corações prontos: Vamos a Belém, para ver o que aconteceu e que o Senhor nos comunicou. E encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Viram, adoraram e regressaram louvando e glorificando a Deus  (Lc 2,9-20).

 

  • Os magos. São mais um exemplo comovedor de coração pronto. Homens da corte real que estudavam os astros, um dia viram brilhar uma estrela singular, inexplicável. Indagaram, estudaram, consultaram livros e sábios, e chegaram à conclusão de que só podia ser a estrela profetizada havia séculos para anunciar o nascimento de um Salvador, rei de Israel[1].

 

Com uma simplicidade semelhante à de Maria e de José, eles sentiram-se chamados por Deus, e não hesitaram. Lançaram-se à procura do Salvador enfrentando longos dias, semanas e meses, dificuldades, hostilidade e fadiga, mas não permitiram que nada nem ninguém os afastasse do “sim” pronunciado por seu coração pronto.

 

Após perigos e vicissitudes sem conta, o fulgor da estrela reapareceu e assinalou o lugar onde Jesus se achava. Ao observarem a estrela, os magos sentiram uma enorme alegria. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhes ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,1-16)[2].

 

Esses exemplos relacionados com o nascimento do Salvador têm um denominador comum. Todos os protagonistas – os personagens do presépio – precisaram de fé e coragem, pois as suas decisões e atitudes não foram nada fáceis. Ao mesmo tempo, esses corações confiantes ficaram cheios de paz. Na realidade, a mensagem dos anjos aos pastores fala deles – e dos que são como eles – quando proclama Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade  (Lc 2,14).

 

Quem são esses homens e mulheres de boa vontade? Bento XVI, na homilia da noite de Natal de 2005 respondia: são almas que «estavam dispostas a ouvir a palavra de Deus… Sua vida não estava fechada em si mesma; tinham um coração aberto. De algum modo, no mais íntimo do ser, estavam esperando algo. Tinham disponibilidade para escutar e disponibilidade para começar a caminhar; era uma espera da luz que lhes indicasse o caminho».

 

Você percebe que o coração que se fecha em si mesmo é aquele que  não espera algo que ilumine a vida. Pobre coração trancado no seu quarto escuro! Com quanta clareza Bento XVI caracteriza as almas abertas, os corações prontos, dizendo que são como Maria, José, os pastores e os magos: têm disponibilidade para ouvir a Deus, e começar logo a caminhar. Nisso consiste a “boa vontade”.

 

Dante Alighieri, na Divina Comédia, tem um verso maravilhoso. Fala de Deus e diz: «E’n la sua volontade è nostra pace» ─ «Na sua vontade está a nossa paz».

 

Todos os santos e homens de Deus descobriram essa verdade, e acharam nela a sua paz e a sua alegria. Permita-me encerrar este último capítulo com citações de um Papa ainda vivo e de um santo canonizado, que oferecem matéria para muita meditação:

 

– Bento XVI: «A história do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no fato de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-se a nossa alegria»[3].

 

– São Josemaria Escrivá: «O abandono à Vontade de Deus é o segredo para sermos felizes na terra… Jesus, o que tu quiseres, eu o amo »[4]. E, falando da Virgem Maria: «Isso é o que explica a vida de Maria: o seu amor. Um amor levado até ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, feliz de estar onde Deus a quer, cumprindo com esmero a vontade divina. Isso é o que faz com que o menor de seus gestos não seja nunca banal, mas cheio de conteúdo. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho»[5].

 

Que ela nos ensine a dizer, no mesmo diapasão dela: Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto! (Salmo 57,8).

[1] cf. Nm 24,5-17

[2] Ver o livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Ed. Cultor de Livros, São Paulo  2018, págs.17-56

[3] Encíclica Deus caritas est, n.17

[4] CaminhoI, n. 766 e 773

[5] É risto que passa, n. 148