OS DEVERES DIFÍCEIS

Pontos de luz:  «Obstáculos?… Às vezes, existem. – Mas, em algumas ocasiões, és tu que os inventas por comodismo ou por covardia» (Sulco, n. 505). «Cresce perante os obstáculos. – A graça do Senhor não te há de faltar» (Caminho, n. 12)

 

Por que há deveres difíceis “para mim”?

 

Em todos os setores da vida humana há coisas fáceis e coisas difíceis. Também, como é lógico, no campo dos deveres. Tentemos fazer agora uma pequena análise desses «deveres difíceis», um balanço de consciência muito relacionado com o do capítulo anterior.

 

  • Há deveres importantes (religiosos, familiares, profissionais…) que nos custam, simplesmente, porque exigem esforço e dedicação, só por isso, mas que são perfeitamente exequíveis. Tornam-se difíceis para mim por causa da minha «resistência ao esforço e ao sacrifício», o que é a definição da preguiça.

 

  • Outros deveres nos parecem impossíveis, porque pensamos que «no meu caso» não dá para cumprir. «Acontece – dizemos – que eu estou despreparado, não tenho jeito, tenho tais e quais limitações».

 

Todo o mundo tem algumas faltas de jeito que são reais, objetivas. Nem todos são aptos para certos trabalhos manuais, ou para pintar paisagens, tocar violino, fazer discursos… Mas ninguém pode dizer: «Não tenho jeito para educar os filhos», «Não sei o que fazer na igreja, não entendo a Missa»…

 

É muito cômodo dizer «não sei fazer», «não entendo». Já tentou aprender, nessas questões, como é a sua obrigação? Muitas e muitos – não são poucos – em condições idênticas ou inferiores às suas, enfrentaram esses deveres responsavelmente, com a consciência de que Deus lhes pedia isso, e aprenderam a cumpri-los até se tornarem modelo para outros.

 

  • Outro enterro de deveres. Quando dizemos que o problema é o da falta de tempo, na maior parte dos casos trata-se de uma desculpa esfarrapada. Quem «quer mesmo» alguma coisa, sempre acha o tempo necessário. Não será que, na realidade, nos falta amor ao dever, porque nos falta amor a Deus e amor aos outros?

Não duvide, sempre é questão de amor. Com amor, somos capazes, como se diz familiarmente, de «fazer misérias».

 

Cumprir com elegância

 

Quando a consciência nos queima pelas nossas omissões, podemos cair em outra cilada: a tentação de «fazer alguma coisa», qualquer coisa, pouca e mal feita, só para poder dizer: «Já fiz!», e, assim, mais uma vez tranquilizar a consciência.  Como se Deus fosse cego ou distraído. Para ele é transparente o fundo do teu coração e das tuas intenções.. Você acha que Deus pode ser enganado?

 

Dessa maneira, com essas desculpas, não é possível santificar a vida cotidiana. E pensar que alguns têm a desfaçatez de achar que isso prova que o cristão comum não pode ser santo. Isso só prova a mesquinhez de quem pensa assim.

 

Vem-me ao pensamento uma expressão da matemática, que eu – ignorante como sou na questão – acho engraçada. Bons amigos meus, que são ótimos matemáticos, contam que já se achou uma solução para o problema do teorema de Fermat (não sei em que consiste, só sei que é difícil), mas objetam que foi uma solução muito prolixa e complicada, e que ainda não foi encontrada uma solução «elegante».

 

Não entendo o que é a elegância na matemática, mas acho que é uma expressão ótima para a santificação dos nossos deveres. Quero dizer com isso – mais uma vez – que não basta cumprir por bater o ponto, como acontece com quem vai à Missa como um poste.  Ou cumprimos o dever com amor, com interesse, com «elegância», do melhor modo possível, ou nos enganamos a nós mesmos, sem reparar que não podemos enganar a Deus.

 

Pode ajudá-lo meditar no exemplo da Sagrada Família de Nazaré. Nela não faltaram deveres difíceis, pois quase tudo tinha que ser feito em casa, no braço: tecer a roupa, moer o trigo e a cevada, carregar água e lenha, preparar utensílios e ferramentas na oficina de José, construir o pequeno forno de chão, etc.  Mas, com certeza, o amor que Jesus, Maria e José colocavam nesses deveres os tornava muitíssimo belos, alegres e… elegantes.