DEVER E AMOR

DEVER E AMOR

 

Ponto de luz: «Tudo o que se faz por Amor adquire formosura e se engrandece» (Caminho, n. 429).

 

O toque do amor

 

Você sabe por experiência que o que fazemos a contragosto, sem amor, nos aborrece, cansa e sai mal feito. Mais de uma vez dissemos: «Não aguento!» «Estou farto!» «Que droga!». Acabamos de meditar justamente sobre as pessoas que «cumprem», mas não gostam dos seus deveres nem são capazes de se entregar a eles de coração.

 

Pelo contrário, quando há amor – o amor que Deus sempre está pronto a infundir nos nossos corações (cf. Rm 5,5) –, tudo se torna leve: a cabeça se enche de iniciativas, o coração pulsa feliz, as forças parece que se multiplicam; faríamos o dobro sem sentir cansaço.

 

Mas, será que esse ideal de amor não é uma bela teoria que poucos conseguem aplicar no cotidiano? Anime-se, porque já são muitos, em todo o mundo, os que se propuseram esse ideal e, com a ajuda de Deus, conseguiram levá-lo à prática.

 

O dever tem boca: fala de Deus

 

Se você tem sede, o melhor que pode fazer é ir à fonte da água. Pois bem, sempre estamos com sede de amor – notemos ou não –, porque o nosso coração é seco demais. Existe, porém, a fonte do amor, que está sempre jorrando em abundância. Só precisamos recorrer a ela e beber. Essa fonte é Deus: Quem crê em mim – diz Jesus –, de seu seio jorrarão rios de água viva»(Jo 7,18).

 

São João afirma que Deus é amor  e acrescenta que, por isso, o amor vem de Deus (1 Jo 4,7-8). Procuremos estar unidos a Ele, confiemos na sua ajuda, tentemos – pelo menos – fazer as coisas com Ele e por Ele.

 

Como enxergar o dever sob a ótica do amor?

 

  • Em primeiro lugar, agradecendo a Deus que estejamos dando importância ao «dever» e compreendamos a sua relação com a santidade. É uma lufada de ar fresco num mundo moralmente rarefeito, onde só se ouve falar de direitos e reivindicações. É uma alegria para a alma descobrir que levar a sério o «dever» é uma forma de amar.

 

  • Em consequência, não veja o dever friamente como «inevitável exigência da vida». O dever é muito mais do que isso: ele traça as linhas da santidade que Deus nos pede. Não há um único momento em que não possamos levantar o coração a Deus e perguntar-lhe, como são Paulo: Senhor, que queres que eu faça? (At 22,10). «Senhor, faz com que eu queira ver, queira ouvir-te e seguir-te!». Seria maravilhoso praticar isso ao pé da letra.

 

Sim, em cada dever, pequeno ou grande, ouvimos (se quisermos) a voz de Deus, que diz: «Aqui estou à tua espera, dá-me “nisso” o teu amor e encontrarás o meu».Como dizíamos citando são Josemaria, Deus «espera-nos em cada dia. Há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir». É maravilhoso «descobrir os fulgores divinos que reverberam nas realidades mais vulgares»[1].

 

  • Sempre é necessário pedirmos a Deus luzes na oração, a fim de discernirmos a diferença que há entre o que Ele quer e o que o nosso egoísmo nos inclina a fazer. Jesus dizia: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra (Jo 4,34). Nós, procuramos viver como Ele? Digamos-lhe, com são Josemaria: «Jesus, o que tu quiseres, eu o amo» [2]. Tente rezar assim, e verá como os momentos difíceis da sua vida se enchem de sentido.
  • Mais um passo é procurarmos que – na medida do possível – cada pormenor de cada dever tenha um “toque” pessoal de delicadeza, por amor a Deus e aos demais; quer dizer, que não seja repetido mecanicamente (como dizia alguém: Ctrl-C/Ctrl-V), sem alma. E isso, desde abrir um sorriso ao acordar bem cedo para levar uma criança à escola, até o gesto de deixar a roupa em ordem antes de dormir. Agindo assim, os nossos deveres cotidianos podem tornar-se uma escada de amor.

 

Essa imagem da escada é de são Josemaria. Em maio de 1974, estando em São Paulo ouviu, numa tertúlia com um grupo de moças, uma menina que lhe perguntou sobre como achar Deus nas coisas pequenas de cada dia:

 

«Tem muita importância o que é pequeno, minha filha – respondeu –. Também estes edifícios grandes de São Paulo estão feitos na base de grãozinhos de cimento, de areia, de peças de ferro… Tudo tem muita importância… Você procure ”estar” nos detalhes, porque são o que temos ao alcance da mão. Você, ainda que seja um “toquinho” assim, está subindo uma escada. Temos a escada do amor, minhas filhas: façam as coisas por amor a Jesus Cristo, para ajudá-lo a carregar a Santa Cruz, nesta terra de Santa Cruz; façam por amor a Santa Maria. E então o pequeno se torna grande, e você já não é mais um “toquinho”’, mas está tocando o Céu com a cabeça»[3].

 

Tenha certeza de que, se soubermos procurar e encontrar a Deus nos deveres diários, acontecerá conosco o que se deu com os discípulos de Emaús. Enquanto caminhavam com Cristo ressuscitado, de volta para casa, foram passando gradativamente da tristeza para a alegria: Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho? (Lc 24,32). Com Jesus, os deveres mais entediantes transformam-se, como diz a canção, num «palco iluminado».

[1] Entrevistas a Mons. Escrivá, Ed. Quadrante 2018, n. 119

[2] Caminho, n. 773

[3] Ver nosso livro são Josemaria Escrivá no Brasil, 3ª edição. Ed. Quadrante, São Paulo 2017, pág. 114

 

Trecho do livro Deus na vida cotidiana, Cultor 2019