COISAS PEQUENAS

Ponto de luz: «Um pequeno ato, feito por Amor, quanto não vale!» (Caminho, n. 814).

 

Uma porta fechada com amor

 

Em 1954, encontrava-me em Roma, no Colégio Romano da Santa Cruz, quando um dia são Josemaria Escrivá me pediu que o acompanhasse. Queria mostrar-me um local que poderia servir como escritório para vários de nós, que colaborávamos na redação de algumas publicações. O local era um cômodo no alto do edifício, e tinha janelas em dois lados. Naquele dia ventava muito e, ao entrar, deixei a porta aberta: perigo iminente de que o vento a fechasse com estrondo. Com um sorriso afetuoso, são Josemaria adiantou-se a fechá-la e disse-me: «Com certeza, você não tinha pensado antes que se pode fechar uma porta com amor de Deus».

 

Era a aplicação prática de um seu ensinamento constante, tal como o vemos neste ponto de Caminho: «Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande (n. 813).

 

É isso que nos ensina a doutrina católica sobre o mérito sobrenatural das ações boas. A santidade – bem sabemos – é a perfeição da «caridade», do amor, mas as obras do amor cristão, para que realmente nos santifiquem, não precisam ser grandes, nem difíceis. As coisas mais simples do cotidiano – tema deste livro – podem ser portas abertas para um amor grande, que faz entrar na alma a graça de Deus e nos santifica.

 

Pense um pouco. Desde a manhã até a noite, as pequenas coisas são um apelo constante do Senhor: «Vença a preguiça ao levantar-se», «Não deixe o armário bagunçado nem o banheiro sujo», «Não jogue coisas no chão», «Ajude a preparar o café», «Saia com tempo para chegar pontual ao trabalho», «Dê uma esmola, na rua, àquele mendigo que já conhece», «Entre no trabalho como um gesto e uma palavra cordiais», «Não negue um sorriso aos que menos combinam com você»… Tudo isso, feito com caridade (amor a Deus e ao próximo) são portas abertas à graça de Deus.

 

«A graça – diz o Catecismo da Igreja –, unindo-nos a Cristo com um amor ativo, assegura a qualidade sobrenatural dos nossos atos e, por conseguinte, seu mérito diante de Deus» (n. 2011). E, logo a seguir, cita uma oração de Santa Teresinha, que poderia ser nossa muitas vezes: «Quero trabalhar somente por vosso amor».

 

Agir «só por vosso amor»

 

Como conseguir esse ideal? Para começar, ao fazermos a oração da manhã, ofereçamos a Deus tudo que vamos fazer nesse dia: «Todos os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas ações, neste dia, eu vos ofereço, Senhor, e a minha vida toda por amor». É um oferecimento do dia que são Josemaria gostava de fazer.

 

O ideal é repetir frequentemente, durante o dia, outros oferecimentos breves: «Jesus, eu te ofereço isto». «Isto» pode ser tanto dizer umas palavras simpáticas ao zelador do prédio na saída, como terminar um trabalho até a última vírgula e não deixá-lo para amanhã, ou assumir uma pequena tarefa que outros poderiam e talvez deveriam fazer: «Eu – podemos orar – não precisaria fazer isso, mas faço-o por ti, meu Deus, e ofereço este sacrifício por tal pessoa ou por tal intenção».

 

É claro que isso não sai tão espontâneo nem tão fácil assim. É preciso estar perto de Deus pela vida espiritual e então, como gostava de dizer o Beato Álvaro del Portillo, descobriremos essas coisas «com as pupilas que o amor dilatou».

 

Os ladrões e a água sobre a rocha

 

Uma das comparações que são Josemaria gostava de utilizar é a lenda medieval  daquele bando de ladrões que, para roubar à noite um velho castelo, usava um moleque franzino, que os bandidos içavam até uma janela estreita por onde podia ser introduzido. O moleque entrava, deslizava depois em silêncio pela escada e abria o portão principal por onde o bando inteiro se introduzia no castelo.

 

Assim nos comentava o moral dessa história, em São Paulo, no dia 31 de maio de 1974: «Quer dizer que o inimigo é sempre pequeno. Cedemos numa coisa que parece que não tem importância, um dia, e outro, e depois…  Nós precisamos colocar a nossa luta nas coisas pequenas. Temos que estar atentos às coisas pequenas».

 

No livro É Cristo que passa (n. 77), transmite o mesmo ensinamento com outra comparação. «Devemos convencer-nos que o maior inimigo da rocha não é a picareta ou o machado, nem o golpe de qualquer outro instrumento, por mais contundente que seja: é essa água miúda, que se infiltra, gota a gota, por entre as fendas do penhasco, até arruinar a sua estrutura. O maior perigo para o cristão é desprezar a luta nessas escaramuças que calam pouco a pouco na alma, até a tornarem frouxa, quebradiça e indiferente, insensível aos apelos de Deus».

 

É o próprio Jesus Cristo quem nos diz: Quem é fiel no pouco, também o é no muito, e quem é injusto no pouco, também o é no muito (Lc 16,10)».

 

Quando o amor a Deus e ao próximo dilata as pupilas, percebemos que a santidade está ao alcance da mão, e nos entusiasma o ideal da santificação na vida diária.

 

Compreendemos bem, então, que «quando a fé vibra na alma, descobre-se que os passos do cristão não se separam da própria vida humana corrente e habitual. E que essa santidade grande, que Deus nos reclama, se encerra aqui e agora, nas coisas pequenas de cada jornada»[1].

 

Lembre-se mais uma vez de que este, e não outro,  foi o caminho de Jesus, Maria e José, durante os trinta anos da vida oculta de Cristo em Nazaré.

[1] São Josemaria. Homilia Rumo à santidade, em Amigos de Deus, n. 312

 

Trecho do livro Deus na vida cotidiana, Cultor 2019