PERSEVERAR NAS PEQUENAS COISAS

Ponto de luz: «Começar é de todos; perseverar, de santos». «A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo» (Caminho, nn. 983 e 813).

 

O cotidiano cristão

 

O cotidiano é a sequência contínua dos dias. O «cotidiano cristão» é essa sequência marcada pela constância na fé e pela fidelidade ao amor (de Deus e do próximo, como não nos cansaremos de lembrar).

 

O nosso cotidiano pode ser comparado a uma estrada pela qual avançamos com os passos de cada dia. Pode haver passos mais rápidos e mais lentos. Nunca faltarão alguns tropeções, e teremos que levantar-nos do chão. Poderá haver acidentes de percurso, como uma jamanta  atravessada na pista ou um deslizamento de terra que interrompe o trânsito. Todos temos obstáculos e imprevistos, mas o importante é que não sejamos nós quem interrompe a estrada.

 

Jesus, para falar da constância, utiliza a imagem do homem que, querendo construir uma torre, não calcula bem os meios, e, por não ter preparado devidamente a obra, tem que largar a construção inacabada. Os que o veem – diz – caçoam dele e comentam: Este homem começou a edificar e não pôde terminar (Lc 14,28-30).

 

Torres inacabadas

 

Quantas coisas inacabadas há na nossa vida! Quantas vezes começamos alguma coisa, material ou espiritual, e, sem motivos sérios (motivos que algumas vezes existem e outras muitas não), desistimos, deixamos de lutar e a esquecemos. Assim aumenta o acervo do nosso museu de “torres inacabadas”.

 

Que aconteceu? Não há dúvida de que faltou amor suficiente para assumir os sacrifícios – muitas vezes, só pequenos sacrifícios – que a constância exige. Sem amor, não há perseverança. E, sem sacrifício, não há amor. Quando falta o amor, sucumbimos ao que são Josemaria chamava «a lei do gosto»: «Faço, se gosto; não faço, se não gosto».

 

Cuidado com o álibi das «coisas boas», de que já falamos um pouco. A mãe e o pai de família têm muita coisa boa a providenciar, a fazer, e – como dizem – não podem dedicar muito tempo a atender os filhos, não podem dedicar-se a eles como seria o ideal. Um dever hipertrofiado serve como desculpa para abandonar outro dever.

 

Da mesma forma, se focalizarmos o que acontece com as falhas nos nossos planos espirituais, veremos que não nos faltaram desculpas para descuidá-los com adiamentos comodistas («faço oração depois»), e nos afogamos no redemoinho dos nossos horários desorganizados.

 

O cotidiano, assim, se transforma num sobe e desce contínuo, semelhante ao gráfico das febres intermitentes. Alegamos que somos fracos e, por isso, caímos muitas vezes. É verdade.  Mas também é verdade que, com a graça de Deus, poderíamos ser fortes. Nunca leu o que Jesus disse a são Paulo, quando este passava por uma crise e não achava solução?  Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a minha força manifesta o seu poder (2 Cor  12,9).

 

A prática da perseverança cotidiana

 

Examinemos de maneira prática algumas coisas de que precisamos para ganhar perseverança diária.

 

  • De onde tiramos as forças? Da autoconfiança? Da autossuficiência? Da nossa força de vontade? Se fosse assim, estaríamos perdidos. Todo esforço humano do cristão, material e espiritual, deveria ir – como dizia são Josemaria – «precedido, acompanhado e seguido pela oração».

 

Você pede forças a Deus? Você as procura na Eucaristia? Pede ajuda a Nossa Senhora, «auxílio dos cristãos»? Você luta para dar a prioridade devida, no seu dia a dia, à oração, ao terço, aos outros tempos previstos de intimidade com Deus? No último capítulo deste livro, meditaremos sobre isso amplamente.

 

Sempre é válido aquele lema de Santo Agostinho: «Faça o que puder, e peça a Deus o que não puder».

 

  • Evitemos a miragem dos resultados. Estamos num mundo de imediatismos: os resultados de uma consulta na Internet ou de uma diligência qualquer, se não são instantâneos, nos deixam aborrecidos. Na vida cristã não é assim. As almas têm as suas estações: não se chega a apanhar os frutos das melhoras, das virtudes, senão depois de enterrar a semente, de limpar a terra, de esperar pacientemente o desabrochar das flores e o amadurecimento dos frutos.

 

Daí a importância da paciência e da perseverança. São Josemaria gostava muito da figura, hoje já arcaica, do “burrinho de nora”, aquele jumentinho atrelado a uma haste horizontal de madeira, que, dando as mesmas voltas por horas e horas, todos os dias, fazia girar o eixo de um mecanismo dentro do poço, e com ele elevava a água para regar as plantações. «Sempre as mesmas voltas – dizia –. Um dia e outro, todos iguais. Sem isso, não haveria maturidade nos frutos, nem louçania no horto, nem teria aromas o jardim»[1]. O burrinho não via nada, até lhe vendavam os olhos, mas os frutos iam se preparando com segurança e um dia seriam colhidos.

 

  • Tenhamos a humildade de recomeçar: Ninguém consegue perseverar andando em linha reta. Como dizia alguém, a perseverança consiste em «subir caindo». Mas «subir», na base levantar-nos imediatamente e voltar a lutar com mais brio que antes.

 

A falta de humildade, o orgulho é que nos atrapalha. Cada falha deixa-nos um sabor de fracasso, sobretudo quando se repete uma e outra vez. Isso nos humilha, e o orgulho faz-nos cair no desânimo e na desistência. São Josemaria recomendava humildade e espírito esportivo:

 

«Aconteça o que acontecer, persevera no teu caminho; persevera, alegre e otimista, porque o Senhor se empenha em varrer todos os obstáculos.

– Ouve-me bem: tenho a certeza de que, se lutas, serás santo!»[2] «Dá muito bom resultado empreender as coisas sérias com espírito esportivo. – Perdi várias jogadas? Muito bem, mas – se perseverar – no fim ganharei»[3].

 

  • É preciso que entendamos a importância de concretizar:

 

No caminho, só se avança se, a cada passo, um pé se apoia em terreno firme, e depois o outro…

 

Na luta cristã, junto com muita oração, precisamos apoiar cada passo em um chão sólido. Para isso, faz-nos falta ser realistas e concretizar propósitos pequenos; não perder-nos em desejos genéricos e resoluções teóricas.

 

  • Concretizar, primeiro, no exame de consciência. Você diariamente, na hora mais oportuna, faça um exame sobre o seu dia. Bastam três ou quatro minutos. Não se trata de ver tudo o que fez hora por hora. Ao examinar o dia que passou, fixe o olhar só em dois ou três pontos pequenos, que você sabe que são metas importantes da sua luta espiritual, como, por exemplo: «Evitei, nas refeições, comentários negativos que aborrecem os outros?» «Fiz hoje, na hora certa, as orações que tinha me proposto?», etc.

 

  • No final do exame, faça um – um só – propósito concreto para o dia seguinte. Normalmente, o propósito deverá ser um ponto de luta que o ajude a superar algum dos descuidos que teve naquele dia, ou a dar uma melhoradinha em alguma coisa que já vai indo bem. «Amanhã, vou começar meu trabalho sem atrasos, e vou oferecê-lo a Deus», «Vou lutar contra a gula, não repetirei aquele prato»…

 

É muito bom anotar o propósito de cada dia numa agenda de papel ou no celular. Assim fica mais fácil lembrar-se dele, já desde o começo do dia.

 

Perseverar, persistir pouco a pouco com a graça de Deus, é necessário para alcançar a maturidade cristã. Faz quinze séculos, dizia o Papa são Gregório Magno: «A alma humana, como o barco contra a correnteza de um rio, não pode manter-se parada em um mesmo lugar, porque, se não se esforça por subir, irá sendo arrastada por água abaixo»[4].

[1] Caminho, n. 998

[2] Forja, n. 355

[3] Sulco, n. 169

[4] Regra pastoral, Parte III, capítulo 34

 

Trecho do livro Deus na vida cotidiana, Cultor 2019