TRABALHO E AMOR AO PRÓXIMO

 Ponto de luz: «O trabalho profissional é também apostolado, ocasião de entrega aos outros…, o momento de lhes revelar Cristo e levá-los a Deus Pai» (É Cristo que passa, n. 49).

 

Sermos sal e luz no trabalho

 

Talvez você se lembre de que o Sermão da Montanha (a chamada Carta Magna do Cristianismo), depois de enunciar as Bem-aventuranças, transcreve as seguintes palavras de Jesus aos discípulos: Vós sois o sal da terra […], vós sois a luz do mundo» (Mt 5,13-14).

 

São palavras que se dirigem a todos os que foram incorporados a Cristo pelo santo Batismo. Constituem um apelo para fazer, da nossa vida, sal que comunique aos outros o bom sabor de Deus e luz que lhes transmita a claridade da verdade cristã.

 

São Paulo lembrava aos primeiros cristãos essa perspectiva, dizendo-lhes que deviam brilhar, no meio de um ambiente pagão, como luminárias no mundo (Fl 2,15).

 

Como é que vamos transmitir aos outros a luz e o calor da fé? Subindo a um púlpito? Encarapitados num tablado em praça pública? Para a imensa maioria dos cristãos – para o homem da rua – não é isso o que Deus pede. O que deseja é que «contagiem» fé e amor sem estridências, pelo seu modo de viver e de se comportar no convívio diário.

 

Três modos de ser luz no trabalho

 

  • Em primeiro lugar, devemos ser luz pelo exemplo: «Com ele – diz um velho adágio – Deus constrói e o diabo destrói». O exemplo é o selo de garantia da sinceridade das nossas palavras.

 

O que Jesus nos pede é uma atitude tal, que o nosso modo de comportar-nos fale por si: Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,16).

 

No trabalho diário, nós nos damos a conhecer. Aí se vê se somos egoístas ou generosos, se somos responsáveis ou imaturos, se sabemos sofrer com serenidade ou passamos a vida queixando-nos; se somos avarentos ou liberais; se amamos a justiça ou damos “jeitos” inescrupulosos por baixo do pano; se ajudamos fraternalmente os colegas que padecem; se, nos momentos de maior sofrimento, mantemos uma paz e uma serenidade que só se podem explicar pela confiança em Deus.

 

São Josemaria escreve: «Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado de vida, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente consigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado»[1].

 

  • Em segundo lugar, fazemos apostolado com o nosso espírito de serviço. Tem esse espírito aquele que, em vez de se aproveitar dos outros, é prestativo e procura, com generosidade, ser-lhes útil. É um dos aspectos da caridade cristã que Jesus mais repisou:

 

Aquele, dentre vós, que quiser ser grande, seja o vosso servidor…, pois o Filho do Homem [Cristo] não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos (Mc 10,44-45).

 

Pergunte-se, pois, com sinceridade:

 

─ «Em que coisas sou realmente útil aos meus colegas e, em geral, a todos os que entram em contacto comigo pelo trabalho?»

─ «Que plantei de bom na alma e na vida deles, pelo menos de alguns deles?»

─ «Acho, egoisticamente, que não é da minha conta preocupar-me com os outros, e que cada qual deve cuidar de si?».

─  Pratico este conselho de Caminho?: «Quando tiveres terminado o teu trabalho, faz o do teu irmão, ajudando-o, por Cristo, com tal delicadeza e naturalidade, que nem mesmo o favorecido repare que estás fazendo mais do que em justiça deves. – Isso, sim, é fina virtude de filho de Deus!»[2].

 

  • Em terceiro lugar, somos luz realizando um apostolado pessoal de amizade. «E sem saberes por quê – escreve são Josemaria –, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte – falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério»[3].

 

São Josemaria via as relações de trabalho – de estudo, de trabalho intelectual, de trabalho manual – como o que elas são de fato: ambientes em que nascem, crescem e facilmente se consolidam amizades. E, quando as amizades são desinteressadas, é fácil que as pessoas abram a alma e façam confidências mútuas sobre os seus anseios, problemas, sofrimentos, dúvidas.

 

A conversa do amigo leal ajuda nesses momentos. Ainda que não se julgue melhor do que ninguém, abre-se e fala da fé e dos meios espirituais que o ajudaram a ele em situações semelhantes, procura despertar no amigo alguma reflexão mais profunda, sugere-lhe um livro, ajuda-o a interessar-se por Deus e pela Igreja, sempre com o mais delicado respeito pela liberdade alheia.

 

Pensando em alguns que sonham, muito teoricamente, em fazer apostolado neste mundo que gira desorientado, acho que pode ser útil a meditação do seguinte ponto de Sulco: « Acho muito lógicas as tuas ânsias de que a humanidade inteira conheça a Cristo. Mas começa com a responsabilidade de salvar as almas dos que convivem contigo, de santificar cada um dos teus colegas de trabalho ou de estudo… – Esta é a principal missão que o Senhor te confiou» (n. 953).

Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana

[1] Amigos de Deus, n. 273

[2] Caminho, n. 440

[3] Amigos e Deus, n. 273