A CRUZ DE CADA DIA

A CRUZ QUE CONVIDA

Ponto de luz. «É necessário que te decidas voluntariamente a carregar a cruz. Senão dirás com a língua que imitas a Cristo, mas as tuas obras o desmentirão »… « Pede ao Senhor que te ajude a contrariar-te por seu amor; a pôr em tudo, com naturalidade, o aroma purificador da mortificação» (Amigo de Deus, nn. 129 e 138).

 

O combate do amor

 

São Paulo sintetizava vida cristã dizendo: Progredi no amor, assim como Cristo também nos amou e se entregou por nós a Deus, como oferta e sacrifício de suave odor (Ef 5,1).

 

Cristo deixou muito claro que não se pode andar no amor se não se toma, todos os dias, a cruz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me (Lc 9,23). E ainda: Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo (Lc 14,27).

 

Por quê? Porque a cruz de Jesus foi o ápice do amor na história da humanidade. E, sem a cruz, não é possível amar como Cristo, não se pode amar como eu vos amei (Jo 13,34).

 

Todos temos a experiência de que, no nosso íntimo, há constantemente uma batalha entre o bem e o mal. Todos nos damos conta de que, ao lado de muitas coisas boas que fazemos, falhamos diariamente em muitas outras.

 

Há uma experiência pessoal, pois, que nos diz que temos em nós duas forças antagônicas. Uma que nos puxa para a coragem e para o bem; outra, para a covardia e para o mal. Vemo-nos, assim, retratados no que escrevia são Paulo: De fato, não entendo o que faço, pois não faço o bem que quero, mas o mal que detesto (Rm 6,15).

 

São Paulo descreveu várias vezes essa luta íntima como um combate entre o homem novo e o homem velhoHomem novo é o filho de Deus, renascido no Batismo, que se deixa guiar pela força do Amor. Homem velho é o homem abandonado a si mesmo que, sem o auxílio da graça, é arrastado pelas paixões do egoísmo.

 

O “sim” que nasce de um “não”

 

Ao considerarmos essa realidade, entendemos melhor o sentido das palavras de Jesus: Negue-se a si mesmo [ou seja, negue o homem velho], tome a sua cruz cada dia [pratique diariamente a mortificação, que é um “não” aos apelos do egoísmo] e siga-me [diga “sim” ao amor, quando sente a inclinação de dizer não]. Se desejamos mesmo dizer «sim» ao amor, será preciso que digamos muitas vezes «não» ao antiamor. Nisto consiste é a mortificação cristã: um sim com cara de não.

 

Se agora alguém lhe perguntasse pelos seus defeitos, por pouca sinceridade que tivesse, “soltaria” uma lista: sou brusco, sou orgulhoso, não tenho paciência, tenho preguiça de começar coisas que custam, não sou pontual, falta-me autodomínio na comida, na bebida, na curiosidade, na sensualidade, no uso do smartphone…

 

Tome a sua cruz cada dia. É a nós que Jesus fala: cada dia. Você sabe que regar, molhar, dá vitalidade, vigor e crescimento às plantas. A mortificação pode ser comparada com essa água vivificante. “Regando” todos os dias com um pouco mais de sacrifício os nossos deveres e virtudes, a nossa vida cristã amadurecerá e ficaremos gratamente surpreendidos com o resultado.

 

Para explicar isso, um meu amigo usa uma comparação muito pouco teológica, mas muito realista: «Vida cristã sem mortificação, é como uma omelete sem ovos».

 

«O aroma purificador da mortificação»

 

«Pede ao Senhor – líamos essas palavras no início do capítulo – que te ajude a contrariar-te por amor; a pôr em tudo, com naturalidade, o aroma purificador da mortificação»[1].

 

O amor nos alerta, por assim dizer, quando tomamos consciência dos nossos defeitos, e da fraqueza das nossas virtudes. Diz o amor: «Faça aqui uma pequena mortificação para corrigir esse defeito, ou para reanimar essa virtude anêmica».

 

Sugiro-lhe que, num momento oportuno, pegue num papel, ou abra um bloco de notas no celular, e  faça uma lista das mortificações «personalizadas» que deveria praticar, ou seja, daquelas que lhe fazem mais falta e que, por isso mesmo, constituem a sua cruz.

 

Primeiro, prepare uma lista geral. Depois, dentre as mortificações da lista selecione só duas ou três, aquelas que «agora», hoje e nos próximos dias, se dispõe mesmo a fazer. Depois, revise todas as noites, antes de dormir, se cumpriu esse plano ou não.

 

A título de exemplo, vou lhe sugerir apenas algumas mortificações cotidianas que a muitos fazem um grande bem:

 

  • Levantar-se na hora certa, vencendo a preguiça, sobretudo se o dia está frio, ou se enrolamos na noite anterior e fomos dormir tarde.

 

  • Cuidar da ordem no armário, nas gavetas e na mesa de trabalho: não amontoar tudo como num lixão, nem deixar a roupa jogada por qualquer canto. Já se propôs alguma vez adotar aquele conhecido lema: «Um lugar para cada coisa, e cada coisa no seu lugar»?

 

  • Vencer a resistência que sentimos de fazer uma seleção e limpeza de velhos papéis, de antigas faturas, de cartas, folhetos, propagandas e documentos inúteis, de cacarecos e roupas que não utilizaremos mais. Por que não aproveita uma tarde de feriado para botar ordem nisso?

 

  • Mortificar-nos para ganhar um pouco mais de autodomínio no comer, no beber, no falar, no dormir. Por quê não come um pouquinho menos do que gosta, e um pouquinho mais do que não gosta? (é um conselho que dava são Josemaria). Já ouviu falar da «tragédia da manteiga» vivida por um padre irlandês muito santo? Lutava «à hora do café da manhã: “Não comi manteiga…Comi manteiga!”»[2].

 

  • Esforçar-se por ser pontual: no trabalho e, em geral, nos compromissos (sem deixar pessoas irritadas pelo atraso); ser pontual também na hora de fazer as suas práticas espirituais, evitando deixá-las para depois.

 

  • Lutar, rezando muito, contra a onda doentia de sensualidade, que domina as pessoas com verdadeiras patologias (pornografia). Por quê há de olhar tudo, “fuçar” tudo, alimentar imaginações obsessivas? Peça a Deus o domínio próprio de uma pessoa de bem.

 

  • Enfim, para não alongar a lista, calcule quantas horas por semana perde com as redes sociais e as séries, e tire as suas conclusões (mortificações muito concretas: só entrar a tal hora, só assistir a um ou dois episódios, não ultrapassar tanto tempo, etc.).

 

Finalmente, pense que essas mortificações voluntárias, como são Josemaria lembrava, só terão sentido cristão se são feitas por amor e com amor.

Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana

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[1] Amigos de Deus, n. 138

[2] cf. Caminho, edição comentada, n. 205. O padre chamava-se William Doyle