SANTIFICAR O TEMPO QUE PASSA

Ponto de luz: «Se o tempo fosse somente ouro…, talvez pudesses perdê-lo. – Mas o tempo é vida, e tu não sabes quanto te resta». «O tempo é o nosso tesouro, o “dinheiro” para comprarmos a  eternidade» (Sulco nn. 963 e 882).

 

Salvar o tempo

 

«Salvar o tempo, redimir o tempo» é uma bela expressão de São Paulo: Vede, pois, cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios, redimindo o tempo, porque os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor (Ef 5,15-17).

 

Comentávamos acima que muitas vezes temos a impressão de que o tempo escapa voando, como se fosse água que escorre das mãos. Lembro-me de uma entrevista televisiva com Oscar Niemayer, por ocasião dos seus cem anos de idade. «Como vê a sua longa vida?» – perguntava o repórter. «A vida é um sopro» – respondeu Niemayer[1].

 

Falando da passagem do tempo, são Josemaria citava às vezes uns versos do poeta romântico Gustavo Adolfo Bécquer: «Ao brilhar de um relâmpago nascemos, e ainda dura o seu fulgor quando morremos». Incentivava assim a meditar sobre a brevidade do tempo, e o enorme valor que ele tem.

 

A vida é uma sequência de dias comparáveis a pequeninas velas de cera, que se acendem ao amanhecer e rapidamente, ao anoitecer, já estão apagadas. Como é fugaz e incerto o tempo da vida! No entanto, são Josemaria não se cansava de falar do «tesouro do tempo», e comentava que, assim como o mitológico Rei Midas convertia em ouro tudo o que tocava, Deus nos deu a faculdade de converter cada instante da vida em glória de Deus.

 

Para conseguirmos viver esse ideal, precisamos – entre outras – de duas coisas: ter «bússola espiritual», e vencer os inimigos do «hoje».

 

A bússola espiritual

 

Que quer dizer ter bússola? Ter um Norte bem claro na vida. O que quero da vida, o que pretendo?

 

  • Só aquele que sabe qual é o sentido, o porquê da sua vida, tem lucidez para se orientar, e não perde banalmente o tempo. Lembro-me da cena de um velho filme em que um casal sofre um acidente de carro. A mulher fica estendida no asfalto, e ergue, trêmula, os dois braços. O companheiro pergunta-lhe se machucou as mãos, e ela responde, sentindo-se morrer: «As minhas mãos, as minhas mãos… estão vazias!».

 

Ter Norte é não brincar com a vida que Deus nos dá, ter muito clara a finalidade dela e a ordem dos valores. É, por isso, compreender o que é primeiro e, por isso, tem prioridade; o que é secundário; o que vale e o que não vale a pena.

 

Em função dessa hierarquia de valores, você poderá organizar cada dia a sua agenda, procurando que nenhum dia se dissipe no ar, arrastado pelo vento como fumaça. Perder o tempo (não só materialmente, mas dedicando-nos ao que não deveríamos estar fazendo, se tivéssemos pensado bem) é matar a vida… e, às vezes, a eternidade. Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas sim, aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus (Mt 7,21).

 

Com São Paulo, repito: Veja cuidadosamente como andaProcure conhecer qual é a vontade de Deus». E esteja alerta para o que se diz em Caminho: « Pretextos. ─ Nunca te faltarão para deixares de cumprir os teus deveres. Que fartura de razões… sem razão! ─ Não pares a considerá-las. ─ Repele-as e cumpre a tua obrigação» (n. 21).

 

Os inimigos do “hoje”

 

Jesus, no Sermão da Montanha, nos pede: Não vos inquieteis com o dia de amanhã… A cada dia basta o seu cuidado (Mt 6,34).

 

Fazendo eco a estas palavras, são Josemaria diz: «Porta-te bem “agora”, sem te lembrares de “ontem”, que já passou, e sem te preocupares com o “amanhã”, que não sabes se chegará para ti»[2].

 

  • O primeiro inimigo do «hoje» é o «ontem». Se ficarmos presos às coisas do «ontem», que já se foram, a imaginação será facilmente dominada por lembranças melancólicas, frustrações amargas, recordações de alegrias mortas, ressentimentos azedos, saudades do que passou e não voltará…

 

Uma atitude, assim, inutilmente saudosista, despeja no “hoje” substâncias corrosivas, que fazem perder a alegria e a aplicação ao dever atual, e nos fazem perder tempo.

 

  • O segundo inimigo do «hoje», o mais perigoso, é o «amanhã». «Amanhã» é o grande álibi do superficial e do preguiçoso. «Amanhã faço», «Amanhã vejo», «Mais para a frente vai dar para fazer», «Hoje não estou inspirado, não estou bem disposto»…

 

O amanhã, outras vezes, é como um fantasma que oprime o coração com os terrores da insegurança, das dúvidas, dos perigos, das possíveis adversidades … Sentimentos todos que são explicáveis, mas não são cristãos. Jesus vai dizer-nos: Não vos inquieteis com a vossa vida… O vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade de todas estas coisas. Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça [santidade], e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo (Mt 6,25.33).

 

Creio que tinha razão aquele que dizia que, se queremos aproveitar responsavelmente o tempo, devemos pensar que «o pior momento é o melhor momento». Com esse paradoxo queria significar que, quando a preguiça ou a covardia nos sugerem que não é um bom momento para enfrentar uma tarefa pendente, abordar um problema familiar, parar para fazer uma visita ao Santíssimo…, pouco depois experimentaremos, frustrados, que aquele «agora» era o momento certo e, em muitos casos, o único.

 

Com muita razão, são Josemaria afirmava que «Amanhã! Algumas vezes, é prudência; muitas vezes, é o advérbio dos vencidos»[3].

 

Gosto de lembrar um homem santo, o Bem-aventurado bispo vietnamita F. Xavier Nguyen Van Thuân, preso durante treze anos pelo governo comunista, que no cárcere – com seu passado truncado e o futuro sem perspectivas –, descobriu com lucidez o que agora meditamos.

 

«Nas longas noites de prisão – contava no retiro que pregou ao Papa João Paulo II e à Cúria romana em 2000 – me convenci de que viver o momento presente é o caminho mais simples e seguro para alcançar a santidade. Esta convicção me sugeriu uma oração: “Jesus, eu não vou esperar, quero viver o momento presente enchendo-o de amor. A linha reta é feita de milhões de pequenos pontos unidos uns aos outros. A minha vida também é feita e milhões de segundos e de minutos unidos entre si. Se eu viver cada segundo, a linha será reta. Se eu viver com perfeição cada minuto, a vida será santa… Em cada minuto quero dizer-te: “Jesus, eu te amo; a minha verdade é sempre uma nova e eterna aliança contigo”»[4].

Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana

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[1] Esse comentário evoca a afirmação do Salmo 90,9: Acabam nossos anos como um sopro.

[2] Caminho, n. 253

[3] Caminho, n. 251

[4] Testemunhas da esperança, 8ª edição. Cidade Nova, São Paulo 2018, p. 62