A CRUZ QUE NOS É DADA

Ponto de luz: « Quando nós, os cristãos, passamos mal, é porque não damos a esta vida todo o seu sentido divino.  Onde a mão sente a picada dos espinhos, os olhos descobrem um ramo de rosas esplêndidas, cheias de aroma» (São Josemaria, Via Sacra, VI, n. 5).

 

As contrariedades cotidianas

 

A Cruz de Cristo – dizíamos – foi a maior manifestação do amor de Deus na história da humanidade. Nela contemplamos «o Coração que tanto amou os homens», como Jesus dizia a santa Margarida Maria. Por isso, seja qual for a forma em que a cruz se apresente, sempre é para nós, se a soubermos enxergar com os olhos da fé, um apelo para imitar Jesus.

 

Vamos focalizar agora a cruz de cada dia que nós não procuramos nem escolhemos, mas que vem ao nosso encontro.

 

Não há dia em que não apareçam contrariedades. Ora falha o despertador, ora a criança amanhece com febre, ora o bate-estacas da obra vizinha agride os nervos, ora o computador emperra, ora o mau humor do marido ou da mulher ou do chefe caem sobre a nossa boa vontade como um balde de água fria.

 

É a outra face da cruz de cada dia: a cruz passiva. Uma cruz da qual ninguém escapa… Mas, escapar por quê? É muito melhor estender as mãos para ela e perguntar: «Que espera de mim?» Naturalmente a cruz não falará, mas Deus sim, e responderá: «Quero ajudar-te a dar mais, a ser menos avarento do teu tempo e dos teus planos; a ser mais paciente, mais desprendido, mais generoso, mais compreensivo com o próximo, menos apegado ao prazer e à vida mansa…».

 

Na estação da Via Sacra que fala de Simão Cireneu, o homem que voltava do campo e foi obrigado pelos soldados a carregar a cruz de Jesus, são Josemaria comenta: «Às vezes, a Cruz aparece sem a procurarmos: é Cristo que pergunta por nós»[1].

 

Peçamos a Deus que nos ajude a ouvi-lo. Porque é tão fácil escutar-nos só a nós mesmos: «Outra vez!  Agora mais essa! Assim não dá para trabalhar! Não é possível aguentar tanta desordem! Falaram na loja que trariam aquela peça, perdi uma manhã inteirinha e lá me dizem que ainda não chegou!…».

 

Nada de queixas, xingamentos ou gritos…, que evidentemente não nos santificam! O importante é descobrir o que Deus nos pede através das contrariedades cotidianas. Pode pedir-nos, por exemplo:

 

  • Que vejamos naquela cruz, com a paciência e a fé, a mão de Deus, o trabalho do artista divino, que nos quer polir, purificar. «Não te queixes, se sofres. Lapida-se a pedra que se estima, que tem valor. – Dói-te? – Deixa-te lapidar, com agradecimento, porque Deus te tomou nas suas mãos como um diamante… Não se trabalha assim um pedregulho vulgar»[2].
  • Que lutemos para ver o lado bom daquelas pessoas que nos irritam, e assim nos tornemos mais compreensivos; e que, passado o ardor da ira, procuremos tratá-las com coração pacífico e gesto amável.
  • Que o pai e a mãe se deem conta de que, se o filho está ficando impossível, talvez seja ─ ao menos em parte ─ pela sua falha em dar-lhe a educação que precisa: uma dedicação afetuosa, unida a uma grande firmeza.
  • Que não fiquemos atolados na frustração dos fracassos. Que ofereçamos a Deus – pedindo por alguma intenção importante – o malestar produzido pelo nosso insucesso, por um trabalho estragado, por um malentendido que nós não provocamos.

 

Ao mesmo tempo, perguntemo-nos a nós mesmos: «Por quê isso me contraria? Será porque é absurdo? Porque é injusto? Porque é mal intencionado…?». Nem sempre. Se enxergássemos o fundo da nossa alma, perceberíamos que certas contrariedades – corriqueiras e normais na vida de qualquer pessoa – nos abalam por causa da nossa falta de caráter. Contrariam-nos porque batem numa virtude fraca.

 

Cruzes dolorosas que permanecem

 

            Há outras cruzes que também podemos chamar «cotidianas», não por serem como os pequenos aborrecimentos diários, mas porque, sendo mesmo sofrimentos graves, Deus permite que nos acompanhem dia após dia, cotidianamente, por meses, por anos, e às vezes durante a vida inteira.

 

Todos conhecemos, na nossa vida, ou na vida de pessoas queridas, esse perfil da cruz: deficiências físicas congênitas, doenças crônicas ou progressivas, perda de pessoas muito amadas, acidentes que deixam sequelas graves, perda de bens ganhos com muito esforço…

 

Estamos aqui diante do mistério inefável da Cruz de Cristo, um mistério diante do qual devemos ajoelhar-nos com imenso respeito, humildade e fé.  Deus está querendo associar à sua Cruz salvadora algumas almas que ele elege, algumas criaturas que – ao contrário do que muitos pensam – ele ama mais do que a ninguém, filhos e filhas seus nos quais confia, e por isso os torna colaboradores estreitamente unidos a Ele na obra divina da redenção do mundo.

 

Uma mulher paralítica que, na imobilidade do seu leito, oferece o seu sofrimento pela salvação das almas, reza constantemente o Terço, sofre com paz, sempre sorri e tem para todos uma palavra boa, provavelmente está fazendo mais pela salvação do mundo do que cem pregadores tíbios.

 

São João Paulo II, na sua Carta Apostólica sobre “A dor que salva” [3] , escreveu estas belas palavras:

 

«O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todos os homens têm a sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo».

 

Neste mundo em que, ao lado de tantas bênçãos de Deus e de tantas pessoas boas, se deixam sentir com força ventos e tempestades de pecado, as almas generosas que sofrem com amor, unidas ao Senhor, são como que «outros Cristos», que contrabalançam, abraçados à sua Cruz, o peso dos crimes do mundo. Tornados eles próprios uma só coisa com Cristo sofredor, essas mulheres e homens de fé – os santos, os mártires, os inocentes, os doentes, as crianças, os «humilhados e ofendidos»… – são os que mantêm no mundo, como uma tocha acesa, a esperança da salvação[4].

 

Todas essas pessoas, que tanto admiramos, estão dizendo com são Paulo: Fui crucificado junto com Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gl 2,19-20).

 

Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana

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[1] Quinta estação.

[2] Sulco, n. 235

[3] Carta Apostólica Salvifici doloris, de 11/02/1984

[4] Cf. nosso livro A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001, págs. 45-46