FAMÍLIA- SOMBRAS NO LAR

Ponto de luz: «O convívio é possível [na família] quando todos se empenham em corrigir as deficiências próprias e procurar passar por alto as faltas dos outros… Pelo contrário, se dramatizamos os pequenos contrastes e mutuamente começamos a lançar em rosto uns aos outros os defeitos e os erros, então acaba a paz e corremos o risco de matar o amor» (Entrevistas com Mons. Escrivá, n. 108).

 

O desgaste do tempo   

 

Nos quadros de pintores famosos, admiramos muitas vezes a perfeita combinação de luzes e sombras. Quando passa o tempo, porém, muitos desses quadros escurecem: as sombras dão cabo da beleza do original.

 

Na vida do lar acontece a mesma coisa. Há luzes e sombras, bons e maus momentos. No início do casamento, em geral, predominam as luzes: a lâmpada do carinho dá a tonalidade dominante. Mas, conforme vai passando o tempo, em muitos casos – demais! – as sombras avançam, esbatem a luz, e finalmente a apagam. O lar, a família, entram assim num declínio crepuscular, ao qual se pode aplicar o que os discípulos de Emaús diziam a Cristo: Fica conosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso (Lc 24,29).

 

Há tantas famílias em processo de ocaso! Nelas crescem sombras de decepção, de cansaço, de tristeza, de ressentimento…, até chegarem à noite da ruptura.

 

            Que acontece?

 

  • Com a passagem do tempo, o desgaste parece inexorável. Cai o banho de ouro das aparências e ilusões, e aparece o metal barato ou o plástico de que estamos feitos, que a douração cobria. São as limitações; os defeitos enraizados, que se tornam mais evidentes e incômodos; as arestas do caráter; as manias, a falta de preparo e de responsabilidade para uma vida a dois e para a formação dos filhos… Tudo isso é material pronto para a combustão.

 

  • Ao lado dessas carências pessoais, o banho de ouro é raspado também pelos problemas novos que vão aparecendo: profissionais, financeiros, problemas de saúde, e os que acrescentam os filhos.

 

Será que a caducidade é lei da vida, e, por isso, seria melhor aceitar com resignação que «a vida é assim mesmo»? Não. Eu não estou disposto a aceitar que seja «caso único» o de um bom amigo que agora, com mais de oitenta anos e bodas de ouro já comemoradas, continua a dedicar à esposa, quase todos os dias, uma poesia, e ambos vivem felizes?

 

Não. Há muitos lares aos quais o longo repetir-se do cotidiano não desgastou, mas aprimorou. Os problemas, as decepções e as dores inevitáveis fizeram-nos sofrer, mas foram um cadinho purificador. Tiveram alma suficientemente grande para superá-los, e o que era um início de crepúsculo transformou-se em amanhecer.

 

O espelho maldito

 

            Toda explicação dos fracassos e sucessos da família deve ser encontrada na forma como se vive o binômio egoísmo-amor.

 

Muitos veem com as lentes do egoísmo o sacrifício indispensável para construir a vida conjugal e familiar. Encaram a renúncia com repugnância, como um mal intolerável que deveria ser eliminado a todo o custo. Para essas vítimas da maior das fraquezas morais – o amor-próprio egoísta – tudo se torna um problema com o qual não é possível lidar.

 

Homens e mulheres medularmente egoístas encaram o casamento como uma jogada, na qual arriscam apostar, como quem joga pôquer. Se não dá sorte e vantagens rápidas, partem para outras apostas. São os que vão ao casamento, ou à «união estável», com uma mão que só sabe receber, e a outra fechada sobre si mesmos, sobre o seu «eu», o «seu precioso», para dizê-lo como o abominável Golum do Senhor dos Anéis.

 

Essas pessoas, egoístas mais ou menos sentimentais, na realidade casam-se com seu próprio espelho, pois só querem ver e encontrar no outro a si mesmos: que o outro seja o reflexo dos seus desejos, dos seus gostos, manias, preferências e pecados. Se o cônjuge não é um bom espelho, não está programado para dizer sempre «sim, meu bem, como você quiser», a união logo começa a balançar.

 

O jogo voraz da rotina

 

            Como já meditamos, o tempo passa e a habituação parece fazer perder a graça às pessoas e às coisas, também ao amor. O que antes encantava, agora cansa, irrita, chega a enojar.

 

Estamos enganados se pensamos que esse tédio procede da simples «repetição» das coisas, ou do cansaço de ver dia após dia a mesma cara, as mesmas reações e atitudes. Na realidade, procede da «estagnação» do nosso coração, que não soube manter a juventude do amor.

 

É preciso pedir a ajuda a Deus e lutar muito para vencer essa doença da rotina decadente, uma rotina que tem duas faces:

 

  • A rotina decadente do mal. A pessoa mostra sempre o mesmo temperamento insuportável, os mesmos erros, as mesmas falhas, as mesmas mesquinharias, as mesmas discussões, as mesmas cobranças que, com os anos, em vez de melhorar, pioram. Euclides da Cunha fala da «mesmice torturante daquela existência imóvel»[1].

 

É preciso dar-se conta de que o casamento, por si, não muda o jeito apático, negativo, crítico, explosivo, dominante, viciado, da pessoa com quem você se casou.  Vocês não são uma fada e um mago, cada qual com sua vara de condão para mudar o outro. O decisivo é que tenham um empenho muito grande de mudar cada um a si mesmo. É o único jeito.

 

  • A rotina monótona do bem. É própria das pessoas que são boas, idealistas e bem intencionadas, mas que se acomodam, e não se renovam nem humana nem espiritualmente. Não têm a sadia inquietação de dar mais passos de melhora, não sonham em que o lar se ilumine, surpreendido por novas iniciativas e novas manifestações de carinho. Assim, as coisas boas vão se desbotando como uma velha fotografia.

 

Essa «bondade de simples manutenção» é traiçoeira. As pessoas – e, com elas, a família – ficam por baixo das circunstâncias, não conseguem estar à altura com a sua «recusa de crescer», seu «complexo de Peter Pan»; por isso, não alcançam a «temperatura espiritual» necessária para enfrentar novos desafios. Cada vez mais defasados, limitam-se a ir a reboque da máquina da rotina. Vão enterrando, assim, o ideal com que celebraram a inauguração de uma nova família. Não esqueça que essas pessoas são as que costumam dizer que dedicar-se mais intensamente à formação e à espiritualidade cristã é fanatismo ou exagero.

[1] À margem da história, p. 85