O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-II)

 

A COBRA E O RATO BRANCO
Mons. Escrivá, por prescrição médica, tinha que andar a bom passo uma hora diária. Para amenizar esse dever, que a repetição podia tornar monótono, nos primeiros dias de sua estada no Brasil, entre maio e junho de 1974, procurou-se que fizesse a caminhada em lugares amenos e interessantes de se conhecer.
Para o dia 30 de maio, foram escolhidos os jardins do Instituto Butantã, colados à Cidade Universitária. Andando e conversando, podiam contemplar-se os serpentários, as amplas fossas onde se misturam cobras de todo tipo, cujo veneno é extraído periodicamente para a fabricação do soro antiofídico. Perto de um desses lacus, uma edícula com formato de quiosque mostrava em suas quatro faces o que poderíamos chamar de flats privativos de algumas cobras. Através de um vidro de segurança, o espectador podia contemplar lá um espécime interessante de réptil venenoso.
Um desses flats chamou a atenção dos caminhantes. Repousava nele, perfeitamente imóvel, uma gorda serpente cascavel. No mesmo local, estava evolucionando, na maior paz, um ratinho branco. Ora erguia a cabeça, mostrando a ponta rosácea do nariz a tremular, ora farejava a um canto, ora iniciava um surto de corrida e ia passando tranquilo, uma e outra vez,  por cima da cobra. Confiante demais, subiu no corpo da cobra e aproximou-se da cabeça do “bicho mau”. Foi fulminante. Numa investida rapidíssima, a cascavel abocanhou-o, e a aventura do ratinho terminou ali. Como nas fábulas clássicas.
São Josemaria tinha observado atentamente a cena. Quando aconteceu o desfecho previsível, comentou só com pena:  – Ele pediu! (Se lo ha buscado!).
Mais adiante, evocando o episódio, extraiu-lhe o simbolismo espiritual, aplicando-o a atitude lamentável do “pobre cristão, que luta, luta, mas não sabe fugir da ocasião…”. Cristãos de boa vontade, que não se decidem a esforçar-se por melhorar, por vencer erros, pecados e defeitos e por adquirir virtudes; cristãos que sempre ficam na gangorra do cai-levanta e volta-a-cair, e que não conseguirão livrar-se dessa perigosa ambiguidade enquanto não tiverem a coragem (ou a sinceridade) de se afastar das pessoas ou circunstâncias que os levam a claudicar, e a ser abocanhados pela cobra da preguiça, da desordem, do mau humor, da maledicência, do rancor, do ódio, da sensualidade sempre à espreita, da tentação de trocar o dever familiar por uma sonolência de cascavel saciada perante a tv…  Não pode haver vida cristã sem luta.
Nesse mesmo dia, 30 de maio, não sei se por causa do ratinho, São Josemaria falou à tardinha, a um grupo de estudantes, da necessidade de lutar. Animava-os: «Eu tenho que lutar como vocês. Da mesma forma! Experimento as mesmas paixões, as mesmas más inclinações. E tenho também  – como vocês, como todos os homens – uma chamada de Deus. Há algo de grande, de nobre, de divino, que me diz: porta-te bem, vence-te a ti mesmo, procura servir os outros e trabalhar com o pensamento voltado para o bem de todos…»