Jesus e Pedro

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

SÉTIMO DIÁLOGO: PEDRO

(Lucas 22,55-62 e João 21, 15-17)

 

Da queda à esperança

 

D 1.- O quadro familiar que meditávamos no quinto diálogo, contemplando Jesus sentado à beira-mar com os Apóstolos, todos participando de uma cordial refeição de peixe na brasa, prolonga-se numa cena comovente, à qual vale a pena dedicar um diálogo inteiro. Como das outras vezes, procuraremos focalizar a cena devagar, imaginando que estamos lá presentes, olhando e participando de tudo, e tratando de penetrar no coração dos protagonistas, que agora são só dois: Jesus e Pedro.

D 3.- Comecemos lembrando o que narra o Evangelho. No fim da refeição praiana, iniciou-se um diálogo pessoal, a sós, entre Jesus e Pedro. Não sabemos se estavam sentados, olhando para o lago, ou se conversavam caminhando (tudo indica que passeavam); mas sabemos como foi a conversa. Tendo eles comido – diz São João –, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” Também sabemos que Jesus repetiu três vezes essa mesma pergunta. Podemos imaginar a cara de Pedro. Não esperava essas palavras, mas entendeu-as perfeitamente, pois mexeram numa ferida muito funda do seu coração…

D 2.- A pergunta de Cristo – três pedidos de amor – trouxe-lhe à memória, de golpe, aqueles momentos amargos da Paixão em que traiu a amizade de Jesus com três negações, três atos de desamor, três pecados graves. Como lhe doeu na alma ter sido tão covarde, tão egoísta, capaz de renegar Jesus e até de falar depreciativamente dele, para salvar a pele…

D 4.- Aquela foi uma noite muito amarga, lá no pátio da casa do sumo sacerdote, onde Cristo estava preso, manietado, com o rosto roxo de pancadas e sujo de escarros e a alma dilacerada por insultos e calúnias; e tão precisado de carinho, de consolo, de amizade … Justamente nessa noite Pedro o rejeitou, e negou conhecê-lo. Mas, ao mesmo tempo, foi uma noite muito bonita. Comove lembrar de que, depois da terceira negação de Pedro, quando o galo já havia cantado – como Jesus predisse –, diz são Lucas que voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor: ”Hoje, antes que o galo cante, me negarás três vezes”. E, saindo fora, chorou amargamente.

D 2.- Como deve ter sido aquele olhar carinhoso de Jesus sofredor! Nele não houve nada de recriminação, nada de ressentimento. Apenas queria dizer a Pedro com os olhos: “Eu te amei com predileção e, apesar de tudo o que acabas de fazer, continuo a amar-te, pobre amigo, pobre filho meu”. Era um olhar de misericórdia, que é a expressão mais bela e profunda do amor que Deus nos tem, um “amor mais forte do que a morte –dizia João Paulo II -, mais forte do que o pecado”. E ainda acrescentava: “São infinitas a prontidão e a força do perdão de Deus. Nenhum pecado humano prevalece sobre esta força e nem sequer a limita”. A misericórdia de Deus é tão imensa que nos desarma…

D 1.- Foi o que aconteceu, depois daquele olhar de Jesus. O bom Pedro lembrou-se então, com certeza, do momento em que Jesus o escolhera por puro amor, confiando totalmente nele, para ser seu Apóstolo, o chefe dos Apóstolos, a pedra fundamental da sua Igreja. Lembrou-se das incontáveis manifestações de cuidado, compreensão, afeto, paciência; dos ensinamentos e  ajudas que Jesus lhe havia dispensado ao longo de três anos; compreendeu que tinha sido objeto de um amor imenso, que, mesmo que quisesse, não teria como pagar… E, nessa noite, era Jesus quem lhe pagava o pecado, não com um castigo, nem sequer com um olhar de censura ou de rejeição, mas com aquele olhar acolhedor e afetuoso. Por isso, Pedro, saindo fora, chorou, chorou transtornado de pena, chorou arrasado perante a misericórdia de Cristo… Dizem que, durante anos, ainda se lhe notava na face a vermelhidão causada por tantas lágrimas…

D 3.- Pedro chorou por amor, ao mesmo tempo que outro Apóstolo, que também traiu e se arrependeu – Judas –, chorou só de remorso e de raiva de si mesmo, de horror insuportável pelo pecado que tinha cometido. Pequei, entregando o sangue de um justo – gritou; mas não lhe adiantou de nada. Não soube confiar na misericórdia de Deus, não foi capaz de crer nessa misericórdia divina que, quando nos jogamos em seus braços, até dos males tira bens.  Judas Iscariotes desesperou-se, jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se. Poderia ter sido um grande santo, se confiasse, se fosse humilde…!

D 1.-  Mas …, voltemos à conversa Jesus com Pedro, porque nos pode sugerir coisas belíssimas, além das que já meditamos.

D 3.- Sim. Acho que será bom ler a cena completa: Tendo eles comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Respondeu ele: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. Perguntou-lhe outra vez: “Simão, filho de João, tu me amas?” Respondeu-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. Perguntou-lhe pela terceira vez: “Tu me amas?” Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: “Tu me amas?”, e respondeu-lhe: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas”.

 D 4.-Quantas verdades consoladoras nos ensina este trecho do Evangelho! Coisas difíceis de expressar… Mas, na realidade, coisas simples, pois todas elas são demonstrações da misericórdia. Por um lado, Jesus ajuda Pedro a apagar os seus três pecados com três atos de amor. Em segundo lugar, Jesus faz ver a Pedro que, apesar do seu pecado, o considera capaz de ser muito santo, de amar mais do que todos estes, mais do que ninguém (Que confiança imensa!). Em, terceiro lugar, em vez de depor Pedro do seu cargo de Pastor e chefe da Igreja, faz questão de confirmá-lo na autoridade que lhe havia conferido, para que fosse o primeiro entre todos os Apóstolos: nessa cena, Jesus confirma-o na função de pastor dos cordeiros e pastor das ovelhas, ou seja, pastor dos pastores e pastor do povo fiel, de todo o seu rebanho, que é a Igreja.

D 1.- Acho que vale a pena meditar um pouco cada um desses três pontos.

D 4.- Todos eles falam de esperança, de confiança, não é verdade? Creio que o primeiro e o segundo falam sobretudo da confiança que Jesus tem em nós, na capacidade de recuperação do pecador; e da alegria que Deus “experimenta” quando um pecador – por mais “trapo sujo” que seja – se volta para Ele, arrependido e com amor.

D 2.- Isto se vê de forma tocante na parábola do filho pródigo. O filho menor abandona a casa paterna, comete pecado atrás de pecado, disparate atrás de disparate, e Jesus mostra o pai, que simboliza Deus, postado no limiar da porta de casa, perscrutando o caminho, na esperança de ver o filho voltar. E quando enxerga ao longe uma nuvenzinha de pó, o seu coração adivinha, e quando já se aproxima aquele mendigo empoeirado o pai já sabe que é o seu filho, e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o cobriu de beijos. Bastou ao filho, para ser envolvido por todo o amor do pai, só a boa vontade de se arrepender, de voltar e de abrir o coração: Pai, pequei contra o céu e contra ti ….

D 3.- Quem não sabe dizer pequei, esse não sabe dizer Pai! Porque só quem descobriu o amor de Pai que Deus tem por nós pode dar-se conta de como pagou mal esse amor, de como o esqueceu, de como lhe desobedeceu, de como o ofendeu …, e então pode doer-se por amor, que é o verdadeiro arrependimento, a verdadeira contrição. Foi o sentimento que Pedro teve no diálogo à beira do lago e que Jesus o ajudou a manifestar:  Amas-me? –Amo-te…

 D 2.- Sem esse amor, infelizmente, nem chegamos a reconhecer os nossos pecados. Achamos uma desculpa para todos eles, a começar pela desculpa de dizer que nem sequer são pecados, que “eu não cometo pecados”, e assim fechamos o mal dentro do nosso coração e trancamos a porta da alma à misericórdia de Deus e ao seu perdão.

D 3.- Mas há um segundo ponto, como víamos. Jesus, na praia, perguntou a Pedro:  Amas-me mais do que estes? É o segundo ato de confiança de Jesus. O pecador que se arrepende de verdade, por amor, recebe a graça de Deus – normalmente mediante a confissão – e, se corresponde a essa graça com amor, pode chegar a uns cumes de santidade maiores do que os abismos aonde se precipitou com o pecado. É o que aconteceu com Pedro, com Paulo, com Santo Agostinho e com tantos outros. E aí temos outro motivo de esperança. Não tem espírito cristão, por exemplo, a pessoa que diz: “Eu já pequei tanto, caí tão fundo, fiz tantas barbaridades, que o máximo a que posso aspirar é a obter a duras penas o perdão de Deus e entrar no Céu por uma frestinha, como o último da fila…” Errado!

D 4.- Supererrado! Já o estamos vendo no caso de Pedro. Mas também isso fica patente na parábola do filho pródigo. Ao filho pecador que se arrepende, o pai cumula-o de tantos bens e tantas honras, envolve-o em tanta alegria, que provoca a inveja do irmão mais velho, trabalhador e honesto, mas egoísta e mesquinho.

Convinha fazermos uma  festa  – diz o pai –,  pois este teu irmão estava morto, e reviveu; estava perdido, e foi achado.  Este é o espírito de Jesus: Digo-vos que haverá mais júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

 D 3.- Será que somos capazes de arrepender-nos assim? De fazer penitência, por amor, de mudar com alegria e de recomeçar com vibração? Cristo deixou-nos um meio fácil e acessível: o Sacramento da Penitência, a confissão, onde encontramos o Pai do filho pródigo – Deus – com a porta e o coração abertos.

D 1.- E ainda nos resta dizer algo sobre o terceiro ponto. Jesus não só perdoa Pedro, mas confirma-o naquela missão de máxima responsabilidade, que é ser o supremo Pastor da Igreja aqui na terra.

D 3.- Eu penso que, aplicado a cada um de nós, isto nos diz: “Deus espera muito de ti, por mais que a tua vida passada tenha sido um desastre. Não fiques apontando baixo. Não coloques metas medíocres na tua vida cristã, na tua vida de intimidade com Deus, na tua oração, no teu apostolado, na tua dedicação ao bem material e espiritual dos teus irmãos. Sê audaz. Aponta muito alto, pois é aí, nas alturas, que Cristo – que te perdoou e voltará a te perdoar sempre, se te arrependes – te espera”.

D 1.- Jesus ressuscitado acende em nós “fogueiras de amor” e de confiança. Peçamos-lhe – ao terminarmos  este sexto diálogo – que, mesmo que tenhamos a desgraça de traí-lo muitas vezes, nos conceda a graça de não trairmos nunca a nossa confiança na sua misericórdia, nessa fabulosa esperança que Ele nos ganhou morrendo e ressuscitando.

 

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)