A última pesca

 

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

SEXTO DIÁLOGO: A ÚLTIMA PESCA

(João 21, 1-14)

Da rotina à esperança

 

D 1.- Hoje vai mudar a paisagem. Já não estamos mais em Jerusalém, com os Apóstolos, lá no Cenáculo. Eles viajaram, conforme Jesus lhes pedira, e voltaram todos para o Norte, para a Galiléia, a terra deles, onde Jesus os tinha chamado para segui-lo e onde haviam andado juntos durante quase três anos. Sabemos – porque assim o conta São Lucas no início dos Atos dos Apóstolos – que, lá na Galiléia, Jesus ressuscitado se encontrou com eles um bom número vezes, durante mais de um mês…

D 3.- Mas não lhes aparecia todos os dias, não é verdade?

D 1.- É verdade. Isso explica que os Apóstolos, devendo permanecer um período longo na terra deles, não ficassem ociosos e procurassem ocupar os dias com o seu trabalho habitual. E é assim que vamos encontrar hoje um grupo deles, de retorno às suas tarefas de pescadores. A cena que meditaremos agora é a última do Evangelho de São João, que, por sinal, é tão rica de conteúdo e tão cheia de sugestões, que nos vai dar matéria para mais de um diálogo. Vamos ver, como é que começa esta cena?

D 3.- Começa apresentando Pedro, Tomé, Natanael (chamado também Bartolomeu), mais os dois irmãos inseparáveis, Tiago e João, e outros dois discípulos de quem não se dá o nome, todos juntos perto do mar de Tiberíades (ou lago de Genesaré, ou da Galiléia, pois o Evangelho lhe dá os três nomes) . Todos eles eram pescadores. Todos, naquele período, voltaram à tarefa que lhes ocupara tantos tantos dias – e, mais ainda, tantas noites – , um trabalho cansativo, muitas vezes ingrato e sempre rotineiro. Vou pescar, disse-lhes Pedro. Nós também vamos contigo, responderam  os outros . Partiram, e entraram na barca, mas naquela noite não apanharam nada.

 D 1.- Isso já lhes tinha acontecido outras vezes, como quando – bem no início das suas andanças com Jesus – nosso Senhor ficou pregando ao povo de dentro da barca de Pedro (como, aliás, o continua a fazer hoje o sucessor de Pedro, o Papa, dentro dessa barca que é a Igreja), e fez o milagre da primeira pesca milagrosa.

D 2.- Bem. O caso é que, após uma noite de esforços inúteis – lançar a rede, recolhê-la vazia! –, estavam voltando para a praia em silêncio, com o coração tão cinzento como a cor das nuvens do anteamanhecer.

D 4.- Essa é a cor de muitos corações, quando sentem o peso da rotina dos dias: sempre o mesmo trabalho, sempre os mesmos lugares, sempre as mesmas caras, sempre o mesmo trânsito, sempre as mesmas reclamações da mulher, sempre os mesmos mutismos e alheamentos do marido, e os mesmos problemas dos filhos, e a mesma dor de coluna, e a mesma falta de dinheiro… E isso, um dia e outro dia, e um mês e outro mês, e um ano e outro ano… As pessoas sentem-se envolvidas por essa rotina como por um gás asfixiante, e pode chegar um momento muito perigoso, que é quando pensam: “Não aguento mais, isto não é vida”.

D 2.-  Muitos acham, então, que a solução consiste em “mudar” (mudar de cidade, mudar de mulher ou de marido, mudar de trabalho, mudar de religião, mudar os hábitos certos e passar a ter vida “livre”). Ou então “desligam” de tudo e de todos, e passam a viver num mundo de sonhos, de fantasias, de saudades…, que, por serem evasões, facilmente desembocam na pior fuga, na alienação completa do álcool e das drogas. É uma pena!

D 3.- Santo Agostinho, um coração inquieto que não se conformava com as coisas medíocres, dizia: “Eu temia, tanto como à morte, ficar preso pelo hábito rotineiro”. Mas não resolveu o problema fugindo, e sim arrependendo-se dos seus pecados e procurando Deus com toda a alma.

D 4.- Todos deveríamos ter pavor da rotina morta e da fuga … Mas o problema da rotina –contrariamente ao que a maioria pensa – não está na repetição monótona das circunstâncias externas, mas na falta de renovação do nosso coração, do nosso modo de ver e tratar as coisas e as pessoas. O mal está dentro de nós, gostemos ou não de reconhecer isso…

D 2.- Acho que vem a propósito aquela história que conta Chesterton acerca do inglês que, sonhando, foi à procura de outras terras. Viajou. E um dia avistou uma terra que o atraiu extraordinariamente. Aproximou-se dela, desembarcou, começou a internar-se no território e logo chegou, cheio de entusiasmo, à conclusão: “Esta é a terra dos meus sonhos, a que sempre andei procurando!” Ao perguntar a um dos habitantes onde estava, este respondeu-lhe: “Na Inglaterra”.

D 1.-  Algo de parecido acontece conosco, não é certo? Não precisamos ir atrás de outras “ilhas”. Basta ficarmos na nossa – na nossa vida real – , mas vendo-a e vivendo-a com calor de novidade. Isto é o que Jesus nos vai ensinar hoje. Voltemos, então, à nossa cena.

D 3.- O Evangelho, após falar da pesca falha, continua a contar:  Ao romper o dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não o reconheceram. Jesus disse-lhes então: “Rapazes, tendes alguma coisa que comer”.  Eu vou parar aqui para um comentário. Vocês não veem? Mais uma vez, Jesus ressuscitado apresenta-se humano, afetuoso, familiar, não com uma majestade gloriosa e distante. Fala familiarmente: Rapazes! Pergunta se têm algo que se possa comer. Já comentamos antes que assim nos quer mostrar, depois da ressurreição, que deseja viver junto de nós como um amigo muito chegado, compreensivo, humano, inseparável…

D 4.- E o mais divertido – permitam-me usar esta expressão – é que os discípulos, sem enxergar direito no lusco-fusco do amanhecer, não perceberam que era Jesus, e continuaram  tristonhos. Eu imagino o tom  de aborrecimento com que devem ter respondido, incomodados, a Jesus: –”Não! Não temos nada para comer”. E acho que nosso Senhor – rei e senhor de toda a alegria –, mais uma vez se divertiu “divinamente”, quando lhes disse: Lançai a rede ao lado direito da barca e encontrareis. E aconteceu o que já podemos imaginar: uma nova pesca milagrosa.

D 3.- Exatamente. Aconteceu que lançaram a rede e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar.

D 2.- Jesus não faz as coisas pela metade…

D 3.- Não faz mesmo. E agora vem o melhor. Ao ver aquele milagre, João disse a Pedro: “É o Senhor!” João, o discípulo amado, foi o primeiro a ter sensibilidade para perceber que aquele desconhecido era Jesus, e avisou o “patrão” da barca, Pedro. E o bom Pedro, o Pedro emotivo e impulsivo que todos conhecemos, “deu uma de Pedro”: Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou o cinto da túnica, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Não pôde esperar que a barca chegasse à terra. Lançou-se de cabeça à água, ansioso por chegar a Jesus quanto antes! Pouco depois chegaram os outros na barca, arrastando a rede cheia.

D 1.- E o que encontraram? Vamos prestar bem atenção. Vocês acham que encontraram um Jesus hierático, sentado numa cátedra de marfim, dizendo-lhes: “Vamos deixar-nos de coisas banais, materiais, agora que me reconheceram, e vamos falar do que importa: de coisas celestiais, de coisas elevadas, só das coisas espirituais, as únicas que contam”? Vocês acham que foi assim? É claro que não! Todos sabemos que foi bem diferente. Vejamos o que diz o Evangelho.

D 3.- Diz assim: Ao saltarem em terra, viram umas  brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão. Disse-lhes Jesus: “Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes… E depois : Vinde comer. E pronto! Lá ficaram sentados em roda, à volta da fogueirinha que o próprio Jesus acendera, sentindo o cheiro delicioso de peixe fresco assado – que Jesus já tinha começado a preparar, muito diligentemente, com as suas próprias mãos – , e repartindo pedaços de pão e comendo como uma alegre turma de amigos em  piquenique de “feriadão”…

D 4.- Jesus fez questão de valorizar, de mostrar como é importante o “trivial cotidiano”. Eu tenho um conhecido que até chorava de emoção ao pensar nesta cena: “Você – dizia – não percebeu como é maravilhoso? Cristo farofeiro! O Filho de Deus, farofeiro!”

D 1.- Quer dizer que esse seu amigo se alegrava justamente ao perceber o carinho com que Cristo vê e valoriza a nossa vida diária, as pequenas coisas da vida,  que às vezes nos parecem tão longe dos grandes ideais, e concretamente tão longe do ideal cristão de Amor e de santidade…E esquecemos que Jesus passou perto de trinta anos vivendo com amor a “rotina dos dias”, no lar de Maria e José, tendo uma vida normal, discreta e simples, de família, de trabalho…, sendo, como se lê no Evangelho,  o carpinteiro, o filho do carpinteiro… E era a “vida do Deus feito homem”, cheia, portanto, de grandeza e santidade. Com ela estava nos redimindo, estava nos salvando…

D 3.- Eu penso que esta cena de Cristo que pesca, e prepara o almoço, e toma a refeição com os amigos, e conversa com eles à beira do lago é um símbolo do que deveria ser cada um dos nossos dias. Também nós podemos acordar de manhã (pensemos numa manhã da segunda-feira, bem cinzenta), e – se nos tivermos lembrado de rezar e oferecer o nosso dia a Deus – , poderemos ver, com a força da fé, que Jesus está junto de nós e nos diz: “Vamos começar o dia juntos, vamos trabalhar juntos, vamos tratar bem os outros, vamos fazer do “trivial cotidiano” uma aventura de Amor…”.

D 4.-  Ah! Se conseguíssemos ser cristãos que rezam, que se lembram com fé de Deus durante o dia inteiro! (Bastaria, para isso, às vezes,  trazer um crucifixo no bolso, ou um terço, e rezar as orações que amamos, também pela rua; e dizer muitas breves jaculatórias – do tipo “Jesus, eu te amo! Jesus, dá-me um coração como o teu!”– no trânsito, e ao iniciar uma tarefa, e ao morder os lábios para não xingar ou resmungar ou falar mal dos outros…). Se conseguíssemos conversar com Cristo até dos detalhes mais triviais, com certeza se acenderia uma luz nova no nosso coração e, com essa luz, veríamos de uma maneira “nova” todas as coisas; nunca gastas, puídas, aborrecidas e rotineiras. Entenderíamos então  por que Jesus nos diz: Eis que eu faço novas todas as coisas.

D 1.-  Há uma doutrina cristã maravilhosa, que um santo dos nossos dias, São Josemaría Escrivá, soube proclamar com uma clareza e uma força tão grandes, que ateou incêndios de alegria e de amor em milhares de pessoas comuns – cristãos “vulgares”– em todo o mundo. A missão que Deus lhe confiou consistiu em contribuir para que os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, compreendessem «que a sua vida, tal como é, pode vir a ser ocasião de encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer tarefa humana honesta: a vida de um simples cristão – que talvez a alguns pareça vulgar e acanhada – pode e deve ser uma vida santa e santificante».

 D 4.-  Maravilha!

D 3.-  E o mais bonito é o modo de  conseguir isso. Também São Josemaría o ensinava: «Fazei tudo por amor –dizia -. Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo».

E aplicava essa doutrina – que está inspirada no Evangelho e em são Paulo (se não tiver amor, nada me aproveita…) – a todas as coisas cotidianas boas e normais:

– podemos sorrir, por amor, quando não temos vontade mas os outros precisam de “caras sorridentes”;

– podemos acabar, por amor, um trabalho que gostaríamos de interromper por cansaço;

– podemos colocar a roupa no seu lugar, oferecendo esse sacrifício a Deus, em vez de jogá-la em cima da cama ou no chão;

– podemos rezar as orações que nos propusemos, ainda que nos custe concentrar-nos, porque não queremos furtar a Deus, com desculpas de cansaço (que não teríamos para um jogo de futebol ou para assistir à telenovela)  esses momentos que são para Ele…

D 1.- São Josemaria, quando estava nesta terra, ajudava as pessoas – e também agora continua a ajudá-las lá do Céu– a converter, com a graça de Deus, todos os momentos e circunstâncias da vida em ocasião de amar e de servir, com alegria e com simplicidade, e a iluminar assim os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Bonito, não é? Não percebemos que, para os que se propõem viver assim, a rotina já está vencida? O amor e o desejo de servir fazem-nos ver tudo como uma oportunidade única, inédita, de dar (amar é dar) algo a Deus e aos nossos irmãos. Feito com carinho, tudo se faz “novo” e santo …

D 4.-  Isto me lembra uma vez que fui comprar figuras de presépio a um artesão – um artista de verdade –, e lhe pedi uma figura igual a outra que ele tinha numa prateleira do ateliê. Disse-me rotundamente que não. Perguntei: “Mas não conserva o molde?” Ao ouvir essas palavras, levantou-se indignado, como se eu o houvesse ofendido, e gritou: “Molde! …Molde!.. Eu não tenho molde. Cada figura é única e irrepetível”… Se cada dia nosso fosse assim, sem molde…!

D 3.-  É neste sentido que São Josemaria  dizia:

– «Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir… Deus espera-nos cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”.

»A vocação cristã consiste em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia».

D 2.-  E como insistia na santificação do trabalho! Um trabalho realizado por amor a Deus e com empenho em servir: trabalho bem feito, acabado, caprichado nos detalhes, digno de ser colocado no altar do coração  e oferecido juntamente com Jesus-Hóstia na Santa Missa. Toda a vida do cristão se converteria assim numa Missa!

D 1.–  Tudo isto é imensamente sugestivo… Mas precisamos encerrar este diálogo. Acho que hoje todos podemos ir para a cama, pensando: – Amanhã vai começar outro dia, uma nova etapa da minha “rotina diária”. Mas agora já não vou vê-lo suspirando aborrecido e dizendo: “mais um”. Vou entrar nele com a esperança que Jesus pôs em nossos corações, e direi, alegremente: “Mais uma ocasião de amar e de servir. Vamos ver que novidades – com a ajuda de Deus – o meu amor vai ser capaz de descobrir amanhã na minha rotina”.

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)